20.4.11

Fuzzy (ou notas do submundo)

Certo dia recebo esta mensagem numa rede online de engate: "olá rapagão". Começa aqui a minha novela de desventuras com o Fuzzy [baptizo assim o rapaz por um duplo sentido: pessoa vaga, confusa, e fisicamente parecido com a personagem de mesmo nome].
Antes de mais, parece-me adequado relembrar que quando alguém decide engatar na net tem de perceber que, apesar da imaterialidade que separa a realidade virtual da física, os intervenientes não deixam de ter existência e, sobretudo, consciência no mundo - num e noutro.
Eu conhecia o Fuzzy e ele conhecia-me, de vista, de amigos em comum, do meio, do Porto.
O menino faz, então, por mandar dois piropos com graça e adiciona-me nas redes online de socialização (por meu consentimento e vontade, entenda-se). O menino não tem o meu sentido de humor, incomoda-se por pouco e não parece captar uma palavra de ironês; mas tem lata, garra de revolta e, vá, é giro. Só que despreza-me de uma maneira que eu não entendo. Playin' hard to get?, penso. Mas isso não faz grande sentido quando se decide tomar a dianteira. Ou faz? Faço-me difícil também, mas insisto - duas, três, quatro vezes. Nada muda, nem um sinal de reconhecimento. Farto-me.
(...)
Uma coisa adorável e reconfortante sobre o Porto é que ainda vai tendo aquela proximidade de vizinhança típica das cidades europeias de média dimensão. Conheço os cantos à casa, e o ambiente é-me estranhamente familiar. Como familiar é encontrar amigos perdidos pelos anos perdidos numa esquina da Baixa. [Outra coisa adorável e reconfortante da cidade é a de ter há muito renegado aquela claustrofóbica coscuvilhice tão querida ao provincianismo português].
Eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, lá iria acabar por encontrar o moço, fosse pelo meio, pelos amigos ou pela cidade, de vista. Aconteceu, por fim, numa tertúlia política de fim-de-semana a que fui com dois bloquistas meus amigos. Fechei-me, porque não percebia o desprezo e ressentia a incompreensão (além de estar acompanhado, claro); não acedi, por isso, às suas insistentes tentativas de contacto visual, que eu lá ia fisgando de soslaio e que diziam "hey, eu conheço-te!". Nem quando se plantou a vinte centímetros de mim -  conversava eu com um amigo, amigo dele também. Orgulho, teimosia, talvez, mas a culpa não era minha.
No mesmo dia, ao fim da tarde, vem dizer-me, pela net: "tentei por todas as maneiras que me reconhecesses, mas não deves ter reparado". Não te reconheci, é verdade, de tão mudado que te mostraste das outras vezes.
(...)
Durante as semanas e meses que se seguiram acabava por encontrá-lo nos mais diversos sítios - nunca o fazia de propósito, mas sentia sempre um gozo mórbido por poder ignorá-lo com cruel indiferença. E no Facebook, de vez em quando, uma boca sem outro intuito que não o de atiçar a crispação. Outra altura, na biblioteca, estava a estudar com um amigo particularmente bem parecido, e ele viu-nos; novamente o gozo: pensaria ele sermos namorados? Interrompi o estudo do meu amigo e disse-lhe: "ali está o meu arqui-inimigo  gay". - Arqui-inimigo? Porquê? - Longa história; mas sei que ele me vê como a pior escumalha à face da terra: hipócrita, fútil, promíscuo, armariado, fascista... e, acredita, agora que ele te viu comigo também te toma assim! - Nabo. Vê-se mesmo que gostas dele... - (Oh).. Cala-te; estuda!
(...)
Há umas semanas excluiu-me do Facebook, já a purga de todo o ódio contra o mundo tinha começado a revolver o meu corpo (-precisamente ao fim do primeiro mês longe de casa). Agora, com a purga (quase) completa, ficam remorsos de não ter conduzido as coisas de outra maneira, porque até sei que ele é um puto simpático e interessante. Sei que, mais tarde ou mais cedo, vou ter que me confrontar com o Fuzzy para o duelo final, até à morte. Tem de ser porque sempre nos acabamos por encontrar, por acaso, no meio, de vista, no Porto, entre amigos. E ele ainda não sabe, mas vou inscrever-me num mestrado que só existe na faculdade onde ele estuda, no próximo ano. O desfecho aproxima-se e só um poderá sair vitorioso.

6 comentários:

pinguim disse...

Como cinéfilo que és, podes escolher o título: "Duelo ao Sol" ou "Duelo de Fogo", dois excelentes westerns.

pedro a. disse...

Se bem me conheço será antes um melodrama com cenas de screwball ahaha
(dois grandes filmes, sim :)

LM disse...

Adorei a descrição do Porto, concordo 100%. Abençoada Baixa, abençoada familiaridade, né?;)
Quanto ao Fuzzy, ele que leve a bicicleta...cheira-me que é daqueles que mais cedo ou mais tarde (com muito desprezo á mistura) te vai cair na sopa.;)

Speedy disse...

ora aqui está uma novela que vou seguir atentamente. Mas espero que o próximo episódio não seja só daqui a um ano :s

Paulo V. Pereira disse...

aguardo os próximos episódios...

pedro a. disse...

ahaha, we'll see, we'll see