16.9.10

As Panteras e Israel, ou o querer ser tudo e o acabar por não ser mais que ridículo

Li ontem no i, numa notícia acerca da abertura do Queer Lisboa, que as Panteras Rosa andam a divulgar um apelo "internacional" a exigir « a desassociação do Festival de Cinema LGBT do apoio recebido nos últimos 3 anos da Embaixada Israelita em Lisboa». Se quiserem ler a ridícula fundamentação desta medida informem-se aqui. Senão, eu faço o resumo: as Panteras consideram que o Estado Israelita tem tentado branquear os abusos cometidos contra o povo palestiniano pela aposta na imagem de um país tolerante e pró-direitos LGBT - "pinkwashing", segundo as Panteras. [Pouca gente sabe mas Israel foi na verdade o inventor do slogan "Esqueça as nódoas, confie no rosa!", descaradamente roubado por uma marca de detergente da roupa para a sua campanha televisiva.] A razão que terá levado Israel a apostar neste tipo de "washing", e não outro "washing" qualquer (os direitos dos animais, ou a protecção do ambiente, ou ainda a dos valores da democracia liberal), permanece um mistério. Certamente nada terá a ver com a vontade expressa nas urnas pelo povo israelita (como se isso quisesse dizer alguma coisa, puff!); os elevados níveis apresentados em praticamente todos os indicadores de desenvolvimento da ONU e estatísticas semelhantes nada terá a ver com a índole tolerante da sociedade israelita (as Panteras assumem, com extremo simplismo, que o conflito israelo-palestiniano é um movido pela intolerância religiosa; eu não acho que seja, mas isso é tema para outro post.)

O ridículo da coisa, se não salta à vista do leitor mais desinteressado, a mim quase me ofusca: as Panteras Rosa são uma associação de luta contra a homofobia, cujo principio que está na base da sua constituição é o de velar pelos direitos LGBTs e promover a mudança social nesse sentido. O Queer Lisboa é, provavelmente, o maior evento cultural relacionado com a temática Gay e Lésbica em Portugal. As Panteras Rosa estão a pedir que o Queer Lisboa sacrifique parte (importante, já que o festival é organizado por uma instituição sem fins lucrativos e, portanto, totalmente dependente dos apoios que consegue angariar) do seu orçamento para que a organização LGBT possa satisfazer um capricho politico e garantir o mediatismo da semana. Mais: o festival é apoiado, através de embaixadas e institutos, por mais cinco países. Vamos ver o que a história tem a dizer sobre eles, já que, por coerência lógica, se estamos a julgar o politicamente correcto caso Israelo-Palestininano, também temos que esmiuçar os outros apoios "criminosos":

Suíça: o sereno país dos Alpes foi a peça-chave que permitiu o financiamento da guerra do III Reich contra os Aliados (Portugal tem culpas no cartório, obviamente) bem como dos planos nazis de extermínio em massa e outras atrocidades, através do seu sistema bancário de extremo sigilo. Não esqueçamos que os cofres do Banco de Portugal em 1950 estavam cheios de ouro nazi, despachados da Alemanha via banca suíça.
Mais recentemente foi aprovada, em referendo nacional, uma lei que impede a construção de minaretes islâmicos em solo suíço - um gravíssimo atentado à liberdade religiosa. As Panteras nada têm contra os Suíços.

Espanha: nuestros hermanos são acusados de abafar os vários movimentos separatistas que co-habitam dentro da pátria castelhana, movimentos esses muitos ligados aos círculos anárquicos e de extrema esquerda que tanto fascinam as Panteras. Também nada contra os Espanhóis

Alemanha: (não duvido do vosso conhecimento da história do século XX)

França: idem; mas só para não argumentarem que recorro exclusivamente a águas há muito passadas, que dizer da actual política de imigração do governo de Nicolas Sarkozy. Nada, Panteras?...

Noruega: à partida nada contra um dos campeões na escala do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Mas no melhor pano cai a nódoa e, como os meandros da moralidade política são extremamente elásticos e, quando mal aplicados, como neste caso, servem todos os propósitos e não servem nenhum, não nos esqueçamos que a Noruega pertence à NATO!- o vil braço militar do imperialismo americano! Como os EUA são os principais aliados de Israel, tal facto, pela genealogia da política internacional, torna a Noruega cúmplice de Israel na criminosa ocupação de territórios Palestinianos!
Nada contra os Noruegueses, a não ser o constante aumento do preço da posta de bacalhau.

Por falar em posta de bacalhau; estão a ver o ridículo desta história toda?

E, no fim, quem é que as Panteras pretendem que seja o sacrificado das suas criativas investidas pelos domínios da Política Internacional? Um festival português de cinema LGBT.
Não, a sério, bom trabalho. Com activistas assim quem precisa de inimigos?

3 comentários:

sérgio vitorino disse...

Não deixa de ser curioso que pratiques exactamente aquilo de que injustamente nos acusas: selectividade no reconhecer de Direitos Humanos. Pelos vistos, para ti, não são coisa universal. Para nós, são, e incluem israelitas como palestinianos. Quando quiseres intervir sobre o que se passa actualmente em França, podes sempre tentar saber o que temos feito sobre isso. Quando quiseres falar das regiões em Espanha, podes sempre contar com o facto de sermos o único grupo LGBT em Portugal que tem posições públicas sobre o tema, e que trabalha abertamente com os colectivos lgbt independentistas na Catalunha e no País Basco. Desculpa, a nossa prioridade não é intervir sobre coisas ocorridas há 60 anos atrás.
Uma única correcção: não são as panteras que consideram que o Estado de Israel nos anda a utilizar para se branquear - é o movimento LGBT israelita. No nosso blog, que linkas, está toda a informação, se quiseres dar-te ao trabalho de ler. De uma vez por todas, e quanto a um Festival que tanto contribuiu para afirmar aquela ideia de que "os direitos humanos também são direitos LGBT, está na hora de entender que isso não pode ser unilateral, e que é também necessário que os direitos humanos (em geral, ou os dos outros) sejam uma questão LGBT. Se não, não merecemos nada.
sérgio vitorino - panteras rosa

Dário Nemésio disse...

sinto a mesma perplexidade. excelente texto.

pedro a. disse...

Obrigado Dário ;)