23.3.11

A paixão (segundo Nicolau de Almeida)

Há uns meses li um livro com um título verdadeiramente inspirador. Bem sei que não se julga um livro pela capa, ou uma história pelo título, ou um filme pelo trailer (tanta e tanta boa gente que cai na esparrela); sei disso tudo mas, ainda assim, comprei-o. Chamava-se The battle for wine and love.

Eu, agora, preso ao mundo do vinho - ao negócio das nove às cinco, à arte a tempo inteiro - não me canso nem me surpreendo das referências constantes a que o quotidiano me remete para o sumo do fruto espremido, fermentado, envelhecido e servido num copo de pé alto e balão.
A semelhança entre apreciar um bom filme e um bom vinho foi-me revelada em primeiro lugar. A deontologia cinéfila (a minha) recomendou-me a adaptar os mesmos princípios críticos face ao vinho. Não muito tempo depois, descobri que, por essa postura, pertencia a uma escola de enófilos que admira o vinho de uma forma algo controversa e à parte do mainstream - os terroiristas.
Depois, o vinho e a minha relação com a cultura e com os grupos sociais em que me insiro – a nacionalidade, a pertença, a tradição, e, até, posições mais arriscadas sobre a política e a mudança.
Finalmente, a paixão. Um passatempo muito adorado entre os wine buffs é o de partilharem entre si histórias sobre a epifânica garrafa que os converteu a esta quasi-religião. Vasculhei a memória, reflecti e, então, fui-me consciencializando da minha história pessoal na batalha pelo vinho e pelo amor.

Foi numa ocasião inapropriada, quase beata, que me perdi de amores pela primeira vez.
Sentei-me à mesa de Natal quando estavam já todos à minha espera, como de costume. O cheiro a cozido das postas de bacalhau, e do grão, das couves e das batatas, corrompido pelo frito dos filetes de polvo e pelo fedor grosseiro do queijo da serra. O cheiro, como perceberão, é crucial quando a paixão não se consome pela carne, mas pela boca.
O meu pai apresentou-nos (coisa que não conto que aconteça alguma vez no plano da paixão carnal; nem quero, prefiro que me continue a apresentar bons parceiros de copo). Não lhe prestei atenção, tomei-o com a indiferença com que se toma uma cara vulgar que vemos todos os dias na rua e de quem não se espera nada. O meu erro foi precisamente esse. Devemos sempre temer os estranhos que passam por nós na rua; de um momento para o outro são capazes de nos arrancar do trilho planeado e atirar-nos para novas e maravilhosas avenidas. 
É sempre altamente susceptível a clichés descrever as sensações com que uma paixão inesperada nos assalta naquele único segundo. Direi apenas que nesse instante tudo fez o mais claro sentido, e estava em harmonia com o universo (um clichézinho só, vá). Então reparei nele: era robusto, profundo, fechado na aparência mas de trato fácil e afável, lembrava-me os dias fáceis de puto, porque sabia ao sol desses dias.
Senti-me tão culpado por estar a namorar à mesa de Natal. Só tinha olhos (e nariz e boca) para ele. Mas sentia-me confortável: eu ele e a minha família, juntos à mesma mesa a rir e a conversar. Suspeito que ainda demore algum tempo até levar um meu namorado ao jantar da Consoada; mas fiquei com uma brevíssima pista do que poderá ser essa (distante) noite. Fiquei também com o nome dele, o gosto na boca, e só. Nunca mais o vi nem senti desde então.

Agora, na grande metrópole, os meus affairs perderam muito desse romantismo. Experimento-os a todos, sem compromisso. Sempre gostei mais de morenos do que loiros (tudo se joga nos olhos, claro, ou nos lábios), mas não sou esquisito, rodo-os todos, sim, uma galdéria, chamem-me que eu aprovo. Provo e deito fora quando não gosto. Prefiro a subtileza e elegância dos europeus, mas nas noites em que perco a cabeça e a moral servem-me até aqueles australianos de falinhas mansas, ou aqueles americanos que, muito seguros de si, prometem o mundo e depois são uma enorme desilusão logo que despidos de rótulos.
Houve uma noite em que tive a sorte de ter um francês e um espanhol, um e outro no espaço de poucos minutos. O francês era o amante ideal (como dizem que são os franceses): distinto, elegante, profundo, mas austero e masculino. Foi deslumbrante, mas previsível.
O espanhol foi diferente. Primeiro muito tímido mas depois extremamente acessível na sua complexidade e cheio de calor. Imperfeito mas muito romântico, é desses que guardo as melhores recordações e sentimentos.
Mas nenhum, seja qual for a proveniência ou a idade, o rótulo, a fama, a constituição, a cor e a aparência, nenhum me sabe ao sol dos meus dias de puto como os vinhos e os homens lá de casa.


* The Battle for Wine and Love, Alice Feiring (2008)
** O título deste post resulta de um trocadilho desinspirado entre esta música do Rui Veloso e esta lenda da viticultura portuguesa, o Sr. Barca Velha.

4 comentários:

1% disse...

não há melhor do que poder ouvir ou ler alguém a propósito das coisas que lhe importam... obrigado pelo texto :•)

pedro a. disse...

obrigado eu :)

pinguim disse...

Magnífico; gostaria um dia, de ser apresentado a "esse senhor"...

pedro a. disse...

a qual, ao sr. Barca? Também nunca o conheci. Mas consta que perdeu parte da exuberância quando, há uns anos, o meteram num "ginásio" (aproveito a tua deixa do outro comment) para que se tornasse mais parecido com as outras estrelas, mesmo, para isso, sacrificando a sua autenticidade.
É o que dizem, pelo menos.