13.10.10

Brunetto Latini, sodomita

Vi muitos bandos de almas nuas
todas chorando assaz miseramente,
sujeitas a diversos suplícios do fogo.

Umas jaziam em terra de costas;
algumas estavam sentadas em atitude penosa;
e outras andavam sem parar.

As que andavam sem parar eram mais numerosas,
menos numerosas as que jaziam no tormento,
mas maior a sua queixa dolorosa.

Largas chamas choviam lentamente,
sobre a terra areenta, como a neve sobre
os Alpes, quando não sopra o vento.

(...)

Assim encarado pela infame multidão,
fui reconhecido por um deles que me agarrou
pela aba da veste e gritou: «Que maravilha!»

Quando ele dirigiu o braço para mim,
atentei no seu rosto queimado,
a sua fronte enegrecida não impediu

à minha inteligência de o reconhecer;
e inclinando a mão para o seu rosto, respondi:
«Sois vós também aqui, senhor Brunetto?»

Respondeu-me: «Ó meu filho, consente que Brunetto
Latini te siga, deixando, para conversar contigo,
por momentos a fila dos companheiros»

(...)

[Dante:] «Se o meu desejo fosse
satisfeito inteiramente vós permaneceríeis
ainda na companhia da humana natureza;

porque nunca esquecerei, e ela me comove,
vossa cara e boa imagem paterna,
quando no mundo me ensinavas,

de hora em hora, como o homem se imortaliza:
é preciso que, enquanto eu viver, ecoe nas
minhas palavras a gratidão que vos tenho.»

(...)

Nem por isso deixei de continuar a conversar com
o senhor Brunetto, e perguntei-lhe quem eram os
seus companheiros mais célebres e mais eminentes.

Virgílio respondeu-me: «Saber de algum é
proveitoso; dos outros é mais louvável calar,
porque o tempo seria curto para longa narração.

Em suma sabe que todos foram clérigos
e literatos grandes e de grande fama,
mas manchados do mesmo pecado imundo

Prisciano vai com aquela turba infeliz e Francisco
de Accorso
; também haveria podido ver,
se tivesses querido tão asquerosa gente

aquele que pelo Servo dos servos foi transferido
do bispado de Florença para o de Bacchiglione,
onde deixou, morrendo, seus nervos perversamente
estendidos pelo mau uso.

De outros diria ainda; mas eu não posso
ir nem falar contigo mais longamente, porque
vejo aproximar-se outra multidão de condenados.


Os sodomitas da Divina Comédia são gente culta, notável, fraterna e altruísta. Mas pelo pecado imundo são condenados a passar toda a eternidade debaixo de uma chuva de fogo redentora.

Ah, se não fosse pelo belíssimo lirismo medieval de Dante.

2 comentários:

Ovelha Tresmalhada disse...

Dei uma rápida olhadela pelo seu blogue. A reacção ao que vi: "Estoy encantado!". Por isso, tenciono regressar mais vezes,e, se possível, com mais tempo...
Abraço

pedro a. disse...

Agradeço-lhe o elogio OT, e espero que lhe agrade o que vir por aqui ;)
Um abraço