26.9.10

Sinais de Fogo

[Nada a ver com Jorge de Sena, absolutamente nada. Roubo-lhe só o título; vem a propósito.]

Enche-me de ternura, quase paterna, na verdade, ver dois rapazes ou duas raparigas a trocarem uns carinhos, sinceros, sem show off, em plena luz e azafama do dia.
Quando se menciona a expressão "troca de afectos" imaginamos (ou melhor, esse espírito colectivo denominado "as pessoas", imagina) imediatamente duas bichas a tentarem, à força, engolir a cara um do outro. Gente completamente desprovida de todo e qualquer romantismo essa que pensa assim.

Em São Bento, parados a meio das escadas do metro, dois rapazes, dois twinks muito novinhos e engraçados, resolvem uma zanga de namorados com choro, abraços e beijos pelo meio. Ninguém fica atordoado com a cena, ninguém tira fotos mentais ao espectáculo melodramático. É um percalço do quotidiano, como outro qualquer.

Na bilheteira da Trindade, estou eu a tentar ler enquanto espero ser atendido. Ao meu lado um rapaz gordo de metro e noventa, loiro como um ovo, declamava: eu não posso ser gay, não há gays com o cabelo tão amarelo como o meu! Duas raparigas que o acompanhavam riam-se como perdidas; e eram tão giras, uma loira a outra morena, punk, hip e coiso, piercings, roupa justa, cabelo apanhado. Abraçavam-se e de vez em quando esfregavam os narizes e beijavam-se. Nem as velhotas que estão sempre nestes templos de burocracia se transtornavam com isto.

Galerias de Paris, este sábado à noite. Um grupo de bears, de equipamento completo como manda a praxe (cabedal: casaco, boina, botas, calças; correntes, óculos escuros, etc.) passava - provavelmente a caminho do Lusitano - em matilha, pelas hordas de tias, tios, queques e outras pessoas de bem, hippie chics, chic hippies, pseudo-artes, guests listed do Twins, trintões armariados, ..., enfim, como se fizessem parte da biodiversidade que pousa à noite naquela rua, sem disturbar minimamente toda esta fauna (bem, talvez os trintões...). Deveras fascinante!

Hoje chegou-me aos olhos um artigo do The Telegraph sobre a cidade do Porto. Esta frase ilustra bem o que eu acho que se anda a passar por cá: Porto, ideal for an autumn sun break in a relaxed, artful city that, unlike other supposed capitals of cool, prefers not to show off.
So true, so very true. A minha cidade está a crescer. Sem show off!


2 comentários:

Zoninho disse...

às vezes não chega, mas destas revoluções assim, silenciosas, mas que vão mudando a mentalidade das pessoas e a forma como elas vêem o mundo.

pedro a. disse...

Para mim são as verdadeiramente importantes. Pode-se mudar uma lei de um dia para o outro; mas as mentalidades, crenças e preconceitos podem nunca se alterar.