7.4.11

Transexuais com super-poderes ao som de Donna Summer


Esta coisa bizarra veio directamente da Indonésia para o festival de cinema de Hong Kong, onde a vi. Não encontro o trailer legendado, mas também não faz falta: uma transexual é atacada por uma milícia homofóbica e, por força do acaso (ou sabe-se lá do quê), vai parar a uma escola de dança bastante invulgar, em que os dançarinos treinam segundo uma antiga arte marcial. Cedo os mestres da escola percebem o potencial da transexual, que se vai transformando na super-heroína Madame X.
O filme é muito fraco mas divertido, cheio de clichés tão previsíveis que chegam a ser kitsch. Se alguma vez o apanharem num festival qualquer vão vê-lo; mas levem companhia para a galhofa.

*
Há maus filmes e maus vinhos que vêm por bem.

Estávamos deitados na areia a olhar para o céu, já muito ensonados, e a noite ainda nem ia a meio. (Hão de reparar como é fácil embebedarmo-nos com mau vinho). Fomos às Filipinas de fim-de-semana num voo low cost que tinha como destino uma antiga base militar americana ao largo de Manila. Preferimos ficar nas praias perto do aeroporto do que aventurar-nos por este país lindíssimo mas muito perigoso. Num desse resorts, os hotéis, restaurantes e bares têm o hábito de organizarem beach parties nas noites de sexta e sábado. Estávamos deitados na areia, e atrás de nós, numa mega rave, filipinos extasiantes dançavam ao som de Shania Twain.
Agora que penso nisso, o vinho era mesmo fraco, que vergonha... A Shania acabava de cantar e eu acabava a garrafa. Vira o disco e toca Disco, agora! Não sei porquê, mas quando tocado pelo álcool fico extremamente susceptível a música dos anos 70. Deve ser um síndrome qualquer, meticulosamente explicado pela ciência moderna. Começo a ouvir a batida e, aos primeiros acordes inconfundíveis da Hot stuff, dou um salto, o último gole, e parto a correr para a rave.
Gotta have some hot stuff, gotta have some love tonight! Hi there, (abro os olhos: está um miúdo filipino a dançar ao meu lado) do you wanna come dance with us? Hm, claro, obrigado! So, where are from, what's your name, and all that jazz? (é tão difícil conseguir separar a fala da música naquele estado), ..., E vocês, estão aqui de férias? Yeah, just for the weekend, we're students. (reparo nos amigos: o twink, duas raparigas castiças, e um lady boy mais alto e mais entroncado do que eu; porém, surpreendentemente, até bastante feminino). Hum, I have to tell you something: I'm gay. Sim, eu sei. You do? How?! Pela maneira como sempre que te viras para falar comigo me percorres a mão da perna até à barriga; mas não faz mal. Eheh, yeah, sorry about that. (depois o lady boy puxa-me para dançar com ele(a?), acaba a música, que salta uma década, e depois outra, e outra, e eu despeço-me e volto para a areia). Adormeço a ouvir o mar.

Às voltas em Manila, vemos quão naturalmente cartazes de pornografia homossexual convivem com merchandising católico de santos e crucifixos. 80% da população é católica e, entre estes, muitos transexuais (como o da noite anterior e o do filme), sem dúvida. Não parece haver problema de maior. Aliás, a religião parece ser ela também uma espécie de rave sagrada: passamos por uma igreja que anunciava num mega-cartaz uma "glorious party to celebrate God's awesomeness!". Nas Filipinas o Sumo Pontífice reconhecido não é certamente o Bento, mas o Barney.

Fui ao bar gay mais em voga de HK. Uma miséria, minúsculo e previsível. Numa das paredes vi o mesmo cartaz porno que tinha visto em Manila.


[Sobre as Filipinas: é um país pobre e subdesenvolvido, mas não ao ponto da miséria. A maioria das pessoas tem casa e não passa fome, e o clima (quente e húmido) é favorável às culturas do arroz e do milho. Os principais problemas são a segurança e a corrupção. O Estado é incapaz de garantir a ordem nas ruas, e é comum verem-se seguranças privados armados com shotguns.]

[Em Hong Kong as pessoas vivem nos 40s e 50s andares dos muitos arranha-céus, têm malas da Louis Vitton e vão jantar fora todos os dias. A cidade tem um dos PIBs per capita mais altos do planeta.]


(não sei, de facto, qual o panorama legal actual da questão LGBT, tanto nas Filipinas como em Hong Kong; vou ter que investigar isso. No entanto, não deixa de ser curiosa a discrepância aparente entre a armariada HK e a espalhafatosa Manila. Mas isso não quer dizer nada, claro.)

5.4.11

4.4.11

Jim

[Ao iniciar este post lembrei-me de um certo alguém a quem Nick Ray, por um outro filme não muito diferente do Rebel without a cause, deu “o filme da sua vida”. A escrita de Bénard da Costa apresentou-me este termo maravilhoso, e desde então não passa um dia em que não seja levado para um dos muitos filmes que são o filme da minha vida. Os livros do Bénard mostraram-me, com implacável humanidade, como os filmes da nossa vida e os nossos filmes da vida se entrelaçam na mesma inseparável fita.]

Com o fim da idade da inocência veio o Maio de 68.
Vi o Rebel aos 15 ou 16 anos (a pós-puberdade), numa altura em que a minha personalidade dava passos decisivos para se consolidar desordenadamente no estranho eu que sou hoje. (Bem, naquilo que vai mudando mais lentamente, pelo menos.)
Foi o meu primeiro ano de secundário, numa escola nova, longe de casa e do meio a que estava habituado, e atirado (por minha vontade expressa) para o meio da cidade. Era uma escola pequena (pública, claro), interclassista,  direccionada para as economias e humanidades, sem os tiques de bullying social a que estava habituado no básico - aquele ambiente de american highschool que tive de suportar com demasiada paciência. Parecia-me um sítio confortável e os meus colegas pessoas acessíveis e amistosas. Foram primeiras impressões que se confirmaram passados alguns meses, o tempo que bastou para ter encontrado aquelas que continuam a ser das amizades mais queridas da minha vida.
Na verdade, este post é sobre uma delas em particular. É sobre alguém que eu terrivelmente admirava e em que eu via o próprio Jim Stark (eu seria por ver nele o Jim que o admirava?). 
[Doravante este meu amigo será referido aqui no blog pelo alias “Jim”].

O Jim era uma pessoa extremamente segura de si. Em vez de se dissolver no ambiente que o rodeava, definia-o à sua medida. Na escola, vivia à parte dos mainstreamers, essa gente que o respeitava porque não o entendia, e por isso receava-o. [Eu sempre percebi como funcionava o mainstream mas, por preguiça e falta de coragem, compactuava com o estado das coisas (mesmo que não infrequentemente me sentisse completamente deslocado da realidade - altura em que me refugiava na realidade dos filmes)].
O Jim tinha carisma e atitude, e não hesitava em recorrer à força (verbal, física, e intelectual) quando necessário. Não receava o conflito; via-o como inevitável para marcar o seu espaço. Não suportava a superficialidade hipócrita dos mainstreamers, ele que, sendo mais velho do que nós, tinha passado por outras escolas onde a luta pelo espaço havia sido bem mais agreste. [Tinha passado, inclusive, pela escola nossa rival nos rankings nacionais, mais abaixo na mesma avenida; escola essa que é, para mim, o protótipo do american highschool no Porto. Ter dito "não" aos meus pais quando me tentaram inscrever nela foi, provavelmente, o meu primeiro finca pé enquanto pessoa responsável.]

O que ele mais queria era o conforto de uma mesa de café com os poucos que não o julgavam. Essa família, a que eu me juntei, tinha morada num café de rua a uns quarteirões da escola. Passamos tardes infindáveis e não raras noites a conversar nesse café; a conversar e a rir, só, e não chegava tempo para tudo. 
O Jim, além da amizade, tinha-me em alta consideração intelectual. Acusava-me de ser o seu amigo com maior “cultura geral”, e eu ria-me porque notava na sua voz o laivo de orgulho magoado ao admitir isto. Competíamos pelo lugar de melhor da turma que eu, no geral (pela cultura, ripostava ele) assumia, mas que ele vergava ao dominar com invejável facilidade a única disciplina séria que dizia termos – a Matemática.
Os mainstreamers respeitavam-nos também por isso; na verdade, mais por precisarem de nós para trabalhos de grupo e copianços furtivos durante os testes. Nós condescendíamos a troco dessa ilusão de poder.
Unia-nos ainda a paixão pelo cinema. Eu andava a descobrir os Japoneses e os Italianos (Kurosawa e Fellini são os meus mestres destes anos); ele tinha gostos mais prosaicos, mas não menos fascinantes, e desse encontro resultaram muitas soirées cinéfilas em família.

Tenho que admitir: se ele era, em muito, um reflexo do Jim cinematográfico, eu era uma caricatura do Plato (apesar de nunca ter passado pelo drama familiar da personagem, ou outro qualquer que levemente se aproximasse).
Para um puto de 15 anos a aprender a lidar com um contexto social novo, com uma personalidade em ebulição, a deparar-se com os descontrolos e surpresas da sexualidade (e que surpresa), alguém tão seguro e decido como o Jim não podia deixar de ter em mim um impacto extremamente profundo.
Escrevi num outro post que o James Dean tinha a segurança no olhar. Independentemente de género e estrato, feitio e postura, todo o adolescente anseia por segurança, conforto e, como alguém recentemente me explicou, pertença. Mais do que noutra fase da vida parece ser isto que mais nos move por esses anos. Não admira que com um corpo e personalidade em violenta catarse tenhamos essa desesperante necessidade.
Os olhos do Jim irradiavam segurança.
Admito-o, traindo o meu pudor, que por isso o desejava. Sexualmente também, claro (todo o desejo é em parte necessariamente sexual, sobretudo naquela idade). Não sei se ele o percebia; talvez o tenha percebido. Quando finalmente descobriu que eu gostava de dormir com meninos já essa admiração/atracção se tinha transmutado numa puríssima amizade livre dos complexos hormonais dos verdes anos. Agora pergunta-me à descarada se eu me sinto atraído por ele, e eu descarada mas sinceramente firo o seu orgulho donjuanino dizendo-lhe não. [Da última vez que o levei à discoteca gay mais em voga do Porto acabou a noite radiante, por saber que podia ter levado para casa qualquer uma das divas que lá estavam. “Tens mesmo sorte em ser gay”, diz-me de vez em quando.]
*

Isto é o (meu) Rebel without a cause: medo, escape de um mundo estranho, inadaptação, busca pela segurança, pertença. É a inspiradora ode a um dos mais controversos debates da actualidade - o da família. Jim, Judy e Plato, três párias de um mundo que lhes é estranho, encontram no conforto da família que formam a força para conquistarem o seu espaço na adversidade que os rodeia. Sobre a conquista da liberdade, e do caminho que robustece a personalidade. [Apetece-me citar o On Liberty do Stuart Mill, mas não o vou fazer; arriscar-me-ia a politizar ainda mais o filme].
Receio bem que se não tivesse, com a ajuda do Jim e da restante família, conquistado o espaço para me libertar naqueles anos, não teria a força para tentar definir o que me rodeia, coisa a que, aprendi-o, apenas posso ambicionar definindo-me primeiro. Não teria, seguramente, dado o primeiro passo para essa auto-definição, aceitando a minha sexualidade.


*e um obrigado ao Paulo por me ter mostrado esta foto.

30.3.11

Tolerância zero para isto

Perdoa-lhes Pai, que eles não sabem o que dizem.

Farley


Farley Granger foi, sem eu o ter percebido, o meu primeiro love affair do cinema.
Vi o Strangers on a Train aos 13 anos. Guy (a personagem de Granger no filme) era a criatura mais inocente e humana que me tinha aparecido até então no ecrã. Apaixonei-me instantaneamente (sei-o agora; na altura nem sequer sabia o que isso era, digo, apaixonar-me, e apaixonar-me por rapazes de olhos inocentes). Sim, porque a culpa dessa inocência é daqueles olhos. O Jimmy Dean tinha a segurança no olhar, o Farley tinha a inocência nos seus temerosos e carentes olhos castanhos.
Não há maldade quando ele mata a sangue frio no início do Rope. Fá-lo por amor a Brandon, o seu amante cínico e calculista, mais reverente às frias teorias nietzschianas e proto-fascistas, do que ao carente, temeroso e (have you ever bothered for just one minute to understand how someone else might feel?) inocente Phillip. Continua a ser das demonstrações de amor mais tocantes que já vi no cinema.
É o amor que os move também em They live by night. Ele, preso por um crime que não praticou, foge; ela, presa aos seus olhos desde que o encontra, sofre; são atraiçoados por gente que não acredita no bem e no amor. Mas como pode alguém viver num mundo que não acredita no bem e no amor?
A (idade da minha) inocência acabou juntamente com este affair.



Farley Granger
1925-2011

27.3.11

Mein Angst

*fontes: 1ª foto; 2ª foto;

Demasiadas coincidências fazem-me comichão. Estas de que quero falar, para além disso, provocam-me profundos calafrios. 
[isto vem a propósito de uma referência feita noutros meandros a um filme que o nome e o espírito deste blog homenageiam; uma casual troca de vídeos no youtube mostrou-me a ténue mas terrível parecença entre o argumento desse filme e a actualidade.]

Há uns meses fiquei bastante incomodado quando soube da sondagem francesa que punha Marine Le Pen, filha de Jean-Marie e sua sucessora na Frente Nacional (extrema direita), à frente de Nicholas Sarkozy e da líder do Partido Socialista caso as eleições presidenciais se realizassem naquele dia.
Ontem, nas eleições cantonais francesas (de onde saem os conselheiros gerais) a FN afirmou-se como a terceira força política com 11% dos votos, e conseguiu eleger, pela primeira vez para o conselho geral, logo dois conselheiros.
Sendo a França um dos principais players da política comunitária, esta tendência deve-nos preocupar particularmente. Tendência que também se vem verificando na Holanda e na Áustria, onde a extrema direita já partilhou o poder com outros partidos do centro.

Na Finlândia, o pais em que José Sócrates queria ver Portugal transformado, o Parlamento foi dissolvido antes da aprovação de medidas de resgate financeiro a países europeus em dificuldades. Nas sondagens para as próximas legislativas de Maio, o partido de extrema direita "Verdadeiros Finlandeses" (calafrio) chega aos 18% nas intenções de voto. Refira-se que a Finlândia é (era, pelo menos) um dos países mais europeístas dos 27.

Há dias, em Londres, 500 mil pessoas manifestaram-se contra as medidas de austeridade do governo de David Cameron. O protesto acabou em sangue e violência, cortesia daquela escumalha abjecta auto-intitulada "black bloc".

Em Portugal, 300 mil pessoas manifestaram-se pacificamente na rua, em Lisboa e no Porto, há cerca de duas semanas. Algo que à primeira vista me pareceu um bate-pé geracional (uma leve e refrescante lufada de Maio de 68) mas que, claramente, veio a definir-se com um cartão vermelho ao status quo político actual. No entanto, não deixa de ser, também, sintomática a sua evolução. 
Ricardo Araújo Pereira foi um grande simpatizante do movimento Geração à Rasca desde que este deu os seus primeiros passos  no Facebook; agora, após a marcha do dito movimento, tornou-se bem mais céptico. Basta ouvi-lo num dos últimos Governos Sombra da TSF falar da estranha coabitação na marcha entre grupos de minorias sociais e matilhas de skinheads para perceber porquê. Eu estou com ele, no entusiasmo e no cepticismo.

Bem vi os cartazes das Panteras na marcha do Porto, curiosamente espalhadas pelos vários media (a reportagem do João Paulo do PtGay para isso contribuiu certamente). De Lisboa, no entanto, chegaram-me relatos surpresos da participação da extrema direita no protesto. [o Porto é tradicionalmente mais liberal, sim, mas, verdade seja dita, nunca se deparou com os problemas sociais que Lisboa tem de enfrentar com os enormes fluxos de imigrantes que a cidade recebe anualmente.]

Ora, a receita formada pelos interesses difusos representados nesta marcha, o seu ainda mais difuso manifesto, o fenómeno de adesão que deitou as melhores expectativas por terra, e a frágil situação económico-política do país, servem para baralhar a razão na confusão dos ânimos exaltados. O política não foge ao emocional - aliás, um dos seus principais problemas é precisamente o de não conseguir aceitá-lo e incorporá-lo no debate político; não pode, no entanto, deixar vergar o racional aos impulsos irreflectidos, porque no fim alguém se aproveitará disso para seu benefício pessoal. A política é tudo menos inocente.
Não inocentemente, por isso, muitos aproveitaram a ampla abrangência concedida pelo manifesto anti-status quo para o transfigurarem num manifesto anti-democracia. Os argumentos? Os mesmos: instabilidade política e crise económica. Os culpado? Um só: a própria democracia. O interesse da extrema direita na marcha era tão somente esse, o de confundir o estado da nação com o Estado democrático: o primeiro é deplorável por culpa do segundo.

Meus amigos, a força de um protesto, por muito meritório e pertinente (eu fui e sou um grande entusiasta deste movimento, apesar de agora algo mais céptico), é ferida de morte quando no seu seio existem grupos organizados cujo pensamento ideológico atenta contra o bem estar de outros manifestantes. Pior, quando o mesmo protesto pode ser usado como palco político e mediático para esse fim!
O populismo dissemina-se neste ambiente de indignação popular como bolor em fruta podre. Dos extremos surge a escumalha que tenta corromper a razoabilidade dos que se manifestam por direito e com justiça. Essa corrupção é também ela fruto da podridão do status quo, e deve ser, também, alvo do protesto. Não pode imiscuir-se nele, adopte ela o nome de "black bloc", "skinheads", ou outro qualquer.

Um amigo médico diz-me não acreditar em coincidências, mas em sintomas. Provavelmente tem razão. Eu cá confio nos meus calafrios.
[eis a Geração à Rasca dos anos trinta, eis a corrupção e o canto da sereia.]

23.3.11

porque já não se fazem mitos assim?

1932-2011
47 filmes

Obrigado.

A paixão (segundo Nicolau de Almeida)

Há uns meses li um livro com um título verdadeiramente inspirador. Bem sei que não se julga um livro pela capa, ou uma história pelo título, ou um filme pelo trailer (tanta e tanta boa gente que cai na esparrela); sei disso tudo mas, ainda assim, comprei-o. Chamava-se The battle for wine and love.

Eu, agora, preso ao mundo do vinho - ao negócio das nove às cinco, à arte a tempo inteiro - não me canso nem me surpreendo das referências constantes a que o quotidiano me remete para o sumo do fruto espremido, fermentado, envelhecido e servido num copo de pé alto e balão.
A semelhança entre apreciar um bom filme e um bom vinho foi-me revelada em primeiro lugar. A deontologia cinéfila (a minha) recomendou-me a adaptar os mesmos princípios críticos face ao vinho. Não muito tempo depois, descobri que, por essa postura, pertencia a uma escola de enófilos que admira o vinho de uma forma algo controversa e à parte do mainstream - os terroiristas.
Depois, o vinho e a minha relação com a cultura e com os grupos sociais em que me insiro – a nacionalidade, a pertença, a tradição, e, até, posições mais arriscadas sobre a política e a mudança.
Finalmente, a paixão. Um passatempo muito adorado entre os wine buffs é o de partilharem entre si histórias sobre a epifânica garrafa que os converteu a esta quasi-religião. Vasculhei a memória, reflecti e, então, fui-me consciencializando da minha história pessoal na batalha pelo vinho e pelo amor.

Foi numa ocasião inapropriada, quase beata, que me perdi de amores pela primeira vez.
Sentei-me à mesa de Natal quando estavam já todos à minha espera, como de costume. O cheiro a cozido das postas de bacalhau, e do grão, das couves e das batatas, corrompido pelo frito dos filetes de polvo e pelo fedor grosseiro do queijo da serra. O cheiro, como perceberão, é crucial quando a paixão não se consome pela carne, mas pela boca.
O meu pai apresentou-nos (coisa que não conto que aconteça alguma vez no plano da paixão carnal; nem quero, prefiro que me continue a apresentar bons parceiros de copo). Não lhe prestei atenção, tomei-o com a indiferença com que se toma uma cara vulgar que vemos todos os dias na rua e de quem não se espera nada. O meu erro foi precisamente esse. Devemos sempre temer os estranhos que passam por nós na rua; de um momento para o outro são capazes de nos arrancar do trilho planeado e atirar-nos para novas e maravilhosas avenidas. 
É sempre altamente susceptível a clichés descrever as sensações com que uma paixão inesperada nos assalta naquele único segundo. Direi apenas que nesse instante tudo fez o mais claro sentido, e estava em harmonia com o universo (um clichézinho só, vá). Então reparei nele: era robusto, profundo, fechado na aparência mas de trato fácil e afável, lembrava-me os dias fáceis de puto, porque sabia ao sol desses dias.
Senti-me tão culpado por estar a namorar à mesa de Natal. Só tinha olhos (e nariz e boca) para ele. Mas sentia-me confortável: eu ele e a minha família, juntos à mesma mesa a rir e a conversar. Suspeito que ainda demore algum tempo até levar um meu namorado ao jantar da Consoada; mas fiquei com uma brevíssima pista do que poderá ser essa (distante) noite. Fiquei também com o nome dele, o gosto na boca, e só. Nunca mais o vi nem senti desde então.

Agora, na grande metrópole, os meus affairs perderam muito desse romantismo. Experimento-os a todos, sem compromisso. Sempre gostei mais de morenos do que loiros (tudo se joga nos olhos, claro, ou nos lábios), mas não sou esquisito, rodo-os todos, sim, uma galdéria, chamem-me que eu aprovo. Provo e deito fora quando não gosto. Prefiro a subtileza e elegância dos europeus, mas nas noites em que perco a cabeça e a moral servem-me até aqueles australianos de falinhas mansas, ou aqueles americanos que, muito seguros de si, prometem o mundo e depois são uma enorme desilusão logo que despidos de rótulos.
Houve uma noite em que tive a sorte de ter um francês e um espanhol, um e outro no espaço de poucos minutos. O francês era o amante ideal (como dizem que são os franceses): distinto, elegante, profundo, mas austero e masculino. Foi deslumbrante, mas previsível.
O espanhol foi diferente. Primeiro muito tímido mas depois extremamente acessível na sua complexidade e cheio de calor. Imperfeito mas muito romântico, é desses que guardo as melhores recordações e sentimentos.
Mas nenhum, seja qual for a proveniência ou a idade, o rótulo, a fama, a constituição, a cor e a aparência, nenhum me sabe ao sol dos meus dias de puto como os vinhos e os homens lá de casa.


* The Battle for Wine and Love, Alice Feiring (2008)
** O título deste post resulta de um trocadilho desinspirado entre esta música do Rui Veloso e esta lenda da viticultura portuguesa, o Sr. Barca Velha.

20.3.11

À tua espera, Paris.

Yuppie after all

Não. Quero despir o fato e pôr os calções, saber lá da alta cilindrada; quero fugir de bicicleta e ladear o rio naquela manhã de Junho. Quero subir à torre e envolver a cidade, o todo, com a minha mão.
Não. Quero entrar nos alfarrabistas, e procurar livros amarelos roídos, mostrá-los aos amigos em cafés à sombra quando nos falam de longas noites frustradas e esperanças. Não é triste porque está calor e o café amargo arrefece ao vento. Logo à (há) esperança voltamos à noite.
Não. Quero trocar o expectável pelo risível, porque isto é um tédio.
Não!

17.3.11

notas para o fim de semana

1. Mr. T & Chuck Norris in

2. As devidas desculpas à menina por me ter esquecido de a incluir na lista do Quilt. No entanto, a generosidade é tanta que, ao desculpar-me (imagino), me concedeu o maior ataque de riso desta semana. Como se não bastasse, ainda me deu a ideia de criar uma nova listagem, temporariamente apelidade "não havia necessidade" em que incluo o blog da perspicaz senhora por quem se apaixonou. Obrigado, Limão!

3. Cada vez mais certa parece a possibilidade de ir ver a banda mais queer do planeta à costa alentejana este verão (sim, é um eufemismo para o festival mais pitéfilo do país; não quero saber. Como diria um nosso colega alentejano, também eu já lá fui muito feliz).
Fica a música que é o meu guilty pleasure do momento.

GAM

Subtítulo: "Irrita-me tanto o desprezo que esta gente tem pela conversa". Este é um post de irritação, aviso já. E de retraimento também.
GAM = gay asian male. Falo do que se passa na net, porque é a realidade que conheço. Já me asseguraram, no entanto, e eu comprovo-o pela noite hetero, que nos bares se passa o mesmo. O (homem) HongKonger é o primeiro a fazer a distinção entre Ocidente e Oriente, e a vincá-lo com insistência. GAM e GW[hite]M são as duas categorias em que cada um se insere, ou prefere que um se insira (piada fácil, pois; não quero saber). O marketing começa aqui, na divisão dos mercados. Depois, como num catálogo detalhadíssimo, o que se quer, o que se exige, o que se oferece, está lá, simples e directo, sem cuidado de apresentação. Odeio esta falta de eloquência.
Da "conversa" pouco adianta dizer. Faz-se em estilo ping-pong, é desinteressada, é telegráfica, é deselegante, e redunda invariavelmente no mesmo tema (make an educated guess).
Fiz esta experiência com alguns amigos: pedi-lhes que percorressem o dito catálogo online e que me dissessem o que achavam. Deslumbrante à primeira vista. Não admira. O tempo que eles passam nos ginásios e nas compras é impressionante; não, é mesmo impressionante! - ultrapassa o razoável até para o mais metrossexual dos portugueses. Não admira, por isso, que o dito catálogo online se pareça, na verdade, com um da Abercrombie asiática.
[Nesta altura acho por bem referir a minha discordância com aquele gay-dogma que diz que nunca se pode ser demasiado musculado. Nestas coisas da aparência e da atracção (como eu e o Natcho temos vindo a discutir) é difícil e perigoso generalizar. Pessoalmente, acho que o dogma é errado; que o desejável equilíbrio entre figura, cara, corpo, pose e estilo não se atinge necessariamente na base do "more is more". Estes asiáticos convenceram-me definitivamente disso.]
Irrita-me a sensação de compra por catálogo, irrita-me a embalagem que esconde a vulgaridade, irrita-me a falta de empenho e de excitação que até em conversas mais porcas se escusam de entreter!

[segundo parêntesis: conheço bem a mesma realidade virtual (e outras) em Portugal, e tudo o que digo é em relação a ela, não em absoluto. É o facto de ser ainda mais básica, mais impessoal, mais alheia a sofisticações que aqui me queixo.]
Por fim, fica a saudade dos meninos lusitanos e da(s) sua(s) personalidade(s!). De todas as subcategorias e estilos em que se vêm representados (que, sim, prejudicam a individualidade; mas sempre preferíveis a uma única e sufocante tendência que a extingue completamente). Saudades dos meus hipsters incompreendidos, dos meus revolucionariozinhos (com carinho) de extrema esquerda, dos meus intelectuais sarcásticos e ressabiados, dos meus (pseudo) artistas e dos seus (pseudo) problemas existenciais, dos meus betinhos inocentes e inacessíveis, dos meus emos tragicamente estridentes... Adoro-os a todos de uma maneira nada saudável, mas adoro-os. E adoro a sua profunda complexidade, e os seus problemas, e os nossos choques e (pseudo) conflitos .
Juro tratar-vos com mais consideração assim que voltar. Para vocês, 

16.3.11

3 sessões

No cinema, como em muito na vida, sou um tradicionalista. Detesto ver filmes no computador - na televisão não me importo tanto. Infelizmente, é demasiado frequente serem estes os únicos canais em que os podemos ver. Acredito piamente no seguinte: em casa vemos filmes; na tela gigante da sala às escuras cheia de gente vemos Cinema.
Queria, por isso, falar hoje de três sessões de cinema - umas mais curiosas outras mais marcantes, e dos filmes que nelas me foram mostrados.

Onde Bate o Sol (1989) A primeira ocorreu há pouco tempo (há cerca de um ano, acho). Foi na sala 1 dos (agora fechados) Cinemas Cidade do Porto, à Rotunda da Boavista. A Medeia comemorava 20 anos de actividade, e decidiu oferecer-me convites para um desconhecido filme português dos anos 80 incluído num ciclo de homenagem a um senhor que acredito muito admirável e competente mas de que agora não me lembro do nome.
Esforcei-me por arranjar companhia, mas ninguém quis arriscar um fim de tarde comigo a ver um duvidoso filme português do século passado. Nem os meus amigos e conhecidos, nem o restante público. A sala tinha (notem bem) 5 espectadores: eu, o programador do ciclo, o amigo do programador, e um casal de desconhecidos a quem ofereci, à ultima hora, um convite do qual não me conseguira desembaraçar a tempo. Por isto, sou provavelmente uma das poucas pessoas que já viu este estranho objecto do cinema queer português. Mesmo sem o ter percebido, na altura.
Sabia muito pouco sobre o filme antes de ter entrado na sala, mas lá decidi ir à aventura. O filme começa: a imagem de péssima qualidade produzida por uma película roída pelos anos; os habituais problemas de som, marca quase registada do cinema português (o filme foi dobrado depois de filmado); a história convencional (ou assim parecia, à partida) - uma série de intrigas familiares ambientadas por aquela decadente aristocracia contemporânea que vive em Lisboa durante a semana, no tempo actual, e numa casa abrazonada no monte aos fins de semana, num tempo que já lá vai.
O filho mais novo chega de Lisboa. Um puto habituado à vida da cidade, às coisas do mundo, conversador e afável, mas esperto. Depois há outro rapaz, o caseiro da quinta, o oposto do jovem patrão, nascido e criado na ruralidade, temente às antigas hierarquias de poder; vulnerável aos encantos da cidade moderna, portanto. O resto podem adivinhar.
Não imaginam a surpresa!: as baixíssimas expectativas que tinha quando entrei na sala transformaram-se, à medida que a história se desenrolava, em (audíveis) expressões de incredulidade. E ainda mais quando a "relação" entre os dois rapazes começa, por fim, a cozinhar-se com muito cuidado e em lume brando. Nunca é explícita, porque o cenário não o permite (e o filme perderia o mistério). É uma dialéctica cidade-campo, corrupção-inocência, como se pretendesse (abuso, claro) um "Sunrise" queer no Portugal de oitentas.
Uma das melhores surpresas que tive frente ao grande ecrã.

Rocky Horror Picture Show (1975) Vou ser mais breve em relação a este, até porque toda a gente conhece o muito adorado musical do Dr. Frank-N-Furter.
Há uns anos, o Fantas decidiu exibi-lo no Teatro Sá da Bandeira. Para quem não conhece, este teatro portuense tem péssima fama por lá terem sido exibidos, durante muito tempo, filmes a que o JN ainda apelida, nas suas listagens, de porno hardoce. Pelo seu aspecto de teatro degradado do final do século XIX, tornado, ao longo do século passado, no palco principal da Revista nortenha e, depois, casa da matiné do deboche (mais recentemente tem surgido na televisão como imagem de fundo daquelas reportagens sobre os maus hábitos nocturnos das gerações mais novas); por isto tudo era o cenário perfeito para uma sessão do Rocky.
Em Paris o filme é exibido semanalmente há 20 anos, em sessões nada convencionais. A audiência faz parte do filme: mascara-se, intervém nos diálogos, canta e dança as músicas. O culto está bem vivo por esse mundo fora, e recomenda-se.
Em Portugal também, como se viu nesse dia. Mal os lábios vermelhos invadem o ecrã do Sá da Bandeira, começa a paródia! (sem o vigor e a adesão das sessões de Paris e Berlim, mas, ainda assim, orgulhosamente irreverente este Rocky in Porto). Chegados ao Time Warp, todo o velho teatro se abana e acompanha o movimento pélvico que o Criminologista nos ensina, num vigor sincronizado que muito honrada teria deixado Ivone Silva uns anos atrás (e os actores porno dos anos 70 que a substituíram no palco do Sá da Bandeira).

Shortbus (2006) É, destes, o filme mais recente, e a sessão mais antiga. Ainda nem tinha entrado para a faculdade (foi há uns cinco anos, por isso). Estávamos em Maio. Decidi dar um salto a Lisboa, por três razões: para ir conhecer o Indie; para percorrer os bairros típicos da capital; para ir ver os Scissor Sisters ao Coliseu dos Recreios.
Da primeira e única tarde de Indie não tenho grandes lembranças cinéfilas (a não ser pelo ambiente do festival, claro): um filme isrealita sobre a vida de duas mulheres no exército, um Tsai Ming-liang muito aborrecido, um filme de terror japonês terrivelmente fraco. 
O mesmo não posso dizer em relação à noite! Sessão lotadíssima de antestreia do segundo filme de John Cameron Mitchell. O ambiente do grande auditório do São Jorge era arrebatador: respirava-se puro cosmopolitismo naquele lindíssimo enquadramento art déco, mas sem cair no pretensioso - era um genuíno à vontade e profundo interesse cinéfilo. Quando nos calha a sorte de ter 800 pessoas à nossa volta com esta disposição para ver Cinema, torna-se muito mais fácil de explicar porque detesto ver filmes no portátil.
Sentir a plateia vibrar com o filme é uma sensação de pertença maravilhosa. Risos, palmas, gemidos de repulsa (um desses momentos: o autofellatio ), assobios provocadores, gestos, sinais de deslumbramento... Mesmo sabendo que a esmagadora maioria da plateia estava ali mais para ver um filme gay do que um filme de autor, a conjugação destes elementos todos tornou a sessão numa das mais memoráveis a que já assisti num festival (não desfazendo as maravilhosas sessões a que o meu querido Fantas já me habituou).
No dia seguinte, a cereja em cima do bolo: Jake Shears a dançar de cuecas à minha frente, no palco do Coliseu. Desse fim de semana, mais que a Lisboa dos santos, das tascas, dos azulejos, das colinas, ficou a memória de uma Lisboa Qapital de Portugal, que inúmeras visitas seguintes me vieram a confirmar definitivamente.