23.3.11

porque já não se fazem mitos assim?

1932-2011
47 filmes

Obrigado.

A paixão (segundo Nicolau de Almeida)

Há uns meses li um livro com um título verdadeiramente inspirador. Bem sei que não se julga um livro pela capa, ou uma história pelo título, ou um filme pelo trailer (tanta e tanta boa gente que cai na esparrela); sei disso tudo mas, ainda assim, comprei-o. Chamava-se The battle for wine and love.

Eu, agora, preso ao mundo do vinho - ao negócio das nove às cinco, à arte a tempo inteiro - não me canso nem me surpreendo das referências constantes a que o quotidiano me remete para o sumo do fruto espremido, fermentado, envelhecido e servido num copo de pé alto e balão.
A semelhança entre apreciar um bom filme e um bom vinho foi-me revelada em primeiro lugar. A deontologia cinéfila (a minha) recomendou-me a adaptar os mesmos princípios críticos face ao vinho. Não muito tempo depois, descobri que, por essa postura, pertencia a uma escola de enófilos que admira o vinho de uma forma algo controversa e à parte do mainstream - os terroiristas.
Depois, o vinho e a minha relação com a cultura e com os grupos sociais em que me insiro – a nacionalidade, a pertença, a tradição, e, até, posições mais arriscadas sobre a política e a mudança.
Finalmente, a paixão. Um passatempo muito adorado entre os wine buffs é o de partilharem entre si histórias sobre a epifânica garrafa que os converteu a esta quasi-religião. Vasculhei a memória, reflecti e, então, fui-me consciencializando da minha história pessoal na batalha pelo vinho e pelo amor.

Foi numa ocasião inapropriada, quase beata, que me perdi de amores pela primeira vez.
Sentei-me à mesa de Natal quando estavam já todos à minha espera, como de costume. O cheiro a cozido das postas de bacalhau, e do grão, das couves e das batatas, corrompido pelo frito dos filetes de polvo e pelo fedor grosseiro do queijo da serra. O cheiro, como perceberão, é crucial quando a paixão não se consome pela carne, mas pela boca.
O meu pai apresentou-nos (coisa que não conto que aconteça alguma vez no plano da paixão carnal; nem quero, prefiro que me continue a apresentar bons parceiros de copo). Não lhe prestei atenção, tomei-o com a indiferença com que se toma uma cara vulgar que vemos todos os dias na rua e de quem não se espera nada. O meu erro foi precisamente esse. Devemos sempre temer os estranhos que passam por nós na rua; de um momento para o outro são capazes de nos arrancar do trilho planeado e atirar-nos para novas e maravilhosas avenidas. 
É sempre altamente susceptível a clichés descrever as sensações com que uma paixão inesperada nos assalta naquele único segundo. Direi apenas que nesse instante tudo fez o mais claro sentido, e estava em harmonia com o universo (um clichézinho só, vá). Então reparei nele: era robusto, profundo, fechado na aparência mas de trato fácil e afável, lembrava-me os dias fáceis de puto, porque sabia ao sol desses dias.
Senti-me tão culpado por estar a namorar à mesa de Natal. Só tinha olhos (e nariz e boca) para ele. Mas sentia-me confortável: eu ele e a minha família, juntos à mesma mesa a rir e a conversar. Suspeito que ainda demore algum tempo até levar um meu namorado ao jantar da Consoada; mas fiquei com uma brevíssima pista do que poderá ser essa (distante) noite. Fiquei também com o nome dele, o gosto na boca, e só. Nunca mais o vi nem senti desde então.

Agora, na grande metrópole, os meus affairs perderam muito desse romantismo. Experimento-os a todos, sem compromisso. Sempre gostei mais de morenos do que loiros (tudo se joga nos olhos, claro, ou nos lábios), mas não sou esquisito, rodo-os todos, sim, uma galdéria, chamem-me que eu aprovo. Provo e deito fora quando não gosto. Prefiro a subtileza e elegância dos europeus, mas nas noites em que perco a cabeça e a moral servem-me até aqueles australianos de falinhas mansas, ou aqueles americanos que, muito seguros de si, prometem o mundo e depois são uma enorme desilusão logo que despidos de rótulos.
Houve uma noite em que tive a sorte de ter um francês e um espanhol, um e outro no espaço de poucos minutos. O francês era o amante ideal (como dizem que são os franceses): distinto, elegante, profundo, mas austero e masculino. Foi deslumbrante, mas previsível.
O espanhol foi diferente. Primeiro muito tímido mas depois extremamente acessível na sua complexidade e cheio de calor. Imperfeito mas muito romântico, é desses que guardo as melhores recordações e sentimentos.
Mas nenhum, seja qual for a proveniência ou a idade, o rótulo, a fama, a constituição, a cor e a aparência, nenhum me sabe ao sol dos meus dias de puto como os vinhos e os homens lá de casa.


* The Battle for Wine and Love, Alice Feiring (2008)
** O título deste post resulta de um trocadilho desinspirado entre esta música do Rui Veloso e esta lenda da viticultura portuguesa, o Sr. Barca Velha.

20.3.11

À tua espera, Paris.

Yuppie after all

Não. Quero despir o fato e pôr os calções, saber lá da alta cilindrada; quero fugir de bicicleta e ladear o rio naquela manhã de Junho. Quero subir à torre e envolver a cidade, o todo, com a minha mão.
Não. Quero entrar nos alfarrabistas, e procurar livros amarelos roídos, mostrá-los aos amigos em cafés à sombra quando nos falam de longas noites frustradas e esperanças. Não é triste porque está calor e o café amargo arrefece ao vento. Logo à (há) esperança voltamos à noite.
Não. Quero trocar o expectável pelo risível, porque isto é um tédio.
Não!

17.3.11

notas para o fim de semana

1. Mr. T & Chuck Norris in

2. As devidas desculpas à menina por me ter esquecido de a incluir na lista do Quilt. No entanto, a generosidade é tanta que, ao desculpar-me (imagino), me concedeu o maior ataque de riso desta semana. Como se não bastasse, ainda me deu a ideia de criar uma nova listagem, temporariamente apelidade "não havia necessidade" em que incluo o blog da perspicaz senhora por quem se apaixonou. Obrigado, Limão!

3. Cada vez mais certa parece a possibilidade de ir ver a banda mais queer do planeta à costa alentejana este verão (sim, é um eufemismo para o festival mais pitéfilo do país; não quero saber. Como diria um nosso colega alentejano, também eu já lá fui muito feliz).
Fica a música que é o meu guilty pleasure do momento.

GAM

Subtítulo: "Irrita-me tanto o desprezo que esta gente tem pela conversa". Este é um post de irritação, aviso já. E de retraimento também.
GAM = gay asian male. Falo do que se passa na net, porque é a realidade que conheço. Já me asseguraram, no entanto, e eu comprovo-o pela noite hetero, que nos bares se passa o mesmo. O (homem) HongKonger é o primeiro a fazer a distinção entre Ocidente e Oriente, e a vincá-lo com insistência. GAM e GW[hite]M são as duas categorias em que cada um se insere, ou prefere que um se insira (piada fácil, pois; não quero saber). O marketing começa aqui, na divisão dos mercados. Depois, como num catálogo detalhadíssimo, o que se quer, o que se exige, o que se oferece, está lá, simples e directo, sem cuidado de apresentação. Odeio esta falta de eloquência.
Da "conversa" pouco adianta dizer. Faz-se em estilo ping-pong, é desinteressada, é telegráfica, é deselegante, e redunda invariavelmente no mesmo tema (make an educated guess).
Fiz esta experiência com alguns amigos: pedi-lhes que percorressem o dito catálogo online e que me dissessem o que achavam. Deslumbrante à primeira vista. Não admira. O tempo que eles passam nos ginásios e nas compras é impressionante; não, é mesmo impressionante! - ultrapassa o razoável até para o mais metrossexual dos portugueses. Não admira, por isso, que o dito catálogo online se pareça, na verdade, com um da Abercrombie asiática.
[Nesta altura acho por bem referir a minha discordância com aquele gay-dogma que diz que nunca se pode ser demasiado musculado. Nestas coisas da aparência e da atracção (como eu e o Natcho temos vindo a discutir) é difícil e perigoso generalizar. Pessoalmente, acho que o dogma é errado; que o desejável equilíbrio entre figura, cara, corpo, pose e estilo não se atinge necessariamente na base do "more is more". Estes asiáticos convenceram-me definitivamente disso.]
Irrita-me a sensação de compra por catálogo, irrita-me a embalagem que esconde a vulgaridade, irrita-me a falta de empenho e de excitação que até em conversas mais porcas se escusam de entreter!

[segundo parêntesis: conheço bem a mesma realidade virtual (e outras) em Portugal, e tudo o que digo é em relação a ela, não em absoluto. É o facto de ser ainda mais básica, mais impessoal, mais alheia a sofisticações que aqui me queixo.]
Por fim, fica a saudade dos meninos lusitanos e da(s) sua(s) personalidade(s!). De todas as subcategorias e estilos em que se vêm representados (que, sim, prejudicam a individualidade; mas sempre preferíveis a uma única e sufocante tendência que a extingue completamente). Saudades dos meus hipsters incompreendidos, dos meus revolucionariozinhos (com carinho) de extrema esquerda, dos meus intelectuais sarcásticos e ressabiados, dos meus (pseudo) artistas e dos seus (pseudo) problemas existenciais, dos meus betinhos inocentes e inacessíveis, dos meus emos tragicamente estridentes... Adoro-os a todos de uma maneira nada saudável, mas adoro-os. E adoro a sua profunda complexidade, e os seus problemas, e os nossos choques e (pseudo) conflitos .
Juro tratar-vos com mais consideração assim que voltar. Para vocês, 

16.3.11

3 sessões

No cinema, como em muito na vida, sou um tradicionalista. Detesto ver filmes no computador - na televisão não me importo tanto. Infelizmente, é demasiado frequente serem estes os únicos canais em que os podemos ver. Acredito piamente no seguinte: em casa vemos filmes; na tela gigante da sala às escuras cheia de gente vemos Cinema.
Queria, por isso, falar hoje de três sessões de cinema - umas mais curiosas outras mais marcantes, e dos filmes que nelas me foram mostrados.

Onde Bate o Sol (1989) A primeira ocorreu há pouco tempo (há cerca de um ano, acho). Foi na sala 1 dos (agora fechados) Cinemas Cidade do Porto, à Rotunda da Boavista. A Medeia comemorava 20 anos de actividade, e decidiu oferecer-me convites para um desconhecido filme português dos anos 80 incluído num ciclo de homenagem a um senhor que acredito muito admirável e competente mas de que agora não me lembro do nome.
Esforcei-me por arranjar companhia, mas ninguém quis arriscar um fim de tarde comigo a ver um duvidoso filme português do século passado. Nem os meus amigos e conhecidos, nem o restante público. A sala tinha (notem bem) 5 espectadores: eu, o programador do ciclo, o amigo do programador, e um casal de desconhecidos a quem ofereci, à ultima hora, um convite do qual não me conseguira desembaraçar a tempo. Por isto, sou provavelmente uma das poucas pessoas que já viu este estranho objecto do cinema queer português. Mesmo sem o ter percebido, na altura.
Sabia muito pouco sobre o filme antes de ter entrado na sala, mas lá decidi ir à aventura. O filme começa: a imagem de péssima qualidade produzida por uma película roída pelos anos; os habituais problemas de som, marca quase registada do cinema português (o filme foi dobrado depois de filmado); a história convencional (ou assim parecia, à partida) - uma série de intrigas familiares ambientadas por aquela decadente aristocracia contemporânea que vive em Lisboa durante a semana, no tempo actual, e numa casa abrazonada no monte aos fins de semana, num tempo que já lá vai.
O filho mais novo chega de Lisboa. Um puto habituado à vida da cidade, às coisas do mundo, conversador e afável, mas esperto. Depois há outro rapaz, o caseiro da quinta, o oposto do jovem patrão, nascido e criado na ruralidade, temente às antigas hierarquias de poder; vulnerável aos encantos da cidade moderna, portanto. O resto podem adivinhar.
Não imaginam a surpresa!: as baixíssimas expectativas que tinha quando entrei na sala transformaram-se, à medida que a história se desenrolava, em (audíveis) expressões de incredulidade. E ainda mais quando a "relação" entre os dois rapazes começa, por fim, a cozinhar-se com muito cuidado e em lume brando. Nunca é explícita, porque o cenário não o permite (e o filme perderia o mistério). É uma dialéctica cidade-campo, corrupção-inocência, como se pretendesse (abuso, claro) um "Sunrise" queer no Portugal de oitentas.
Uma das melhores surpresas que tive frente ao grande ecrã.

Rocky Horror Picture Show (1975) Vou ser mais breve em relação a este, até porque toda a gente conhece o muito adorado musical do Dr. Frank-N-Furter.
Há uns anos, o Fantas decidiu exibi-lo no Teatro Sá da Bandeira. Para quem não conhece, este teatro portuense tem péssima fama por lá terem sido exibidos, durante muito tempo, filmes a que o JN ainda apelida, nas suas listagens, de porno hardoce. Pelo seu aspecto de teatro degradado do final do século XIX, tornado, ao longo do século passado, no palco principal da Revista nortenha e, depois, casa da matiné do deboche (mais recentemente tem surgido na televisão como imagem de fundo daquelas reportagens sobre os maus hábitos nocturnos das gerações mais novas); por isto tudo era o cenário perfeito para uma sessão do Rocky.
Em Paris o filme é exibido semanalmente há 20 anos, em sessões nada convencionais. A audiência faz parte do filme: mascara-se, intervém nos diálogos, canta e dança as músicas. O culto está bem vivo por esse mundo fora, e recomenda-se.
Em Portugal também, como se viu nesse dia. Mal os lábios vermelhos invadem o ecrã do Sá da Bandeira, começa a paródia! (sem o vigor e a adesão das sessões de Paris e Berlim, mas, ainda assim, orgulhosamente irreverente este Rocky in Porto). Chegados ao Time Warp, todo o velho teatro se abana e acompanha o movimento pélvico que o Criminologista nos ensina, num vigor sincronizado que muito honrada teria deixado Ivone Silva uns anos atrás (e os actores porno dos anos 70 que a substituíram no palco do Sá da Bandeira).

Shortbus (2006) É, destes, o filme mais recente, e a sessão mais antiga. Ainda nem tinha entrado para a faculdade (foi há uns cinco anos, por isso). Estávamos em Maio. Decidi dar um salto a Lisboa, por três razões: para ir conhecer o Indie; para percorrer os bairros típicos da capital; para ir ver os Scissor Sisters ao Coliseu dos Recreios.
Da primeira e única tarde de Indie não tenho grandes lembranças cinéfilas (a não ser pelo ambiente do festival, claro): um filme isrealita sobre a vida de duas mulheres no exército, um Tsai Ming-liang muito aborrecido, um filme de terror japonês terrivelmente fraco. 
O mesmo não posso dizer em relação à noite! Sessão lotadíssima de antestreia do segundo filme de John Cameron Mitchell. O ambiente do grande auditório do São Jorge era arrebatador: respirava-se puro cosmopolitismo naquele lindíssimo enquadramento art déco, mas sem cair no pretensioso - era um genuíno à vontade e profundo interesse cinéfilo. Quando nos calha a sorte de ter 800 pessoas à nossa volta com esta disposição para ver Cinema, torna-se muito mais fácil de explicar porque detesto ver filmes no portátil.
Sentir a plateia vibrar com o filme é uma sensação de pertença maravilhosa. Risos, palmas, gemidos de repulsa (um desses momentos: o autofellatio ), assobios provocadores, gestos, sinais de deslumbramento... Mesmo sabendo que a esmagadora maioria da plateia estava ali mais para ver um filme gay do que um filme de autor, a conjugação destes elementos todos tornou a sessão numa das mais memoráveis a que já assisti num festival (não desfazendo as maravilhosas sessões a que o meu querido Fantas já me habituou).
No dia seguinte, a cereja em cima do bolo: Jake Shears a dançar de cuecas à minha frente, no palco do Coliseu. Desse fim de semana, mais que a Lisboa dos santos, das tascas, dos azulejos, das colinas, ficou a memória de uma Lisboa Qapital de Portugal, que inúmeras visitas seguintes me vieram a confirmar definitivamente.

14.3.11

«My purpose in coming to Hollywood is the destruction of the American male in all its particulars.»

Sinto por este filme um carinho perverso. Primeiro, porque muito pouca gente o conhece, e ainda menos gente o viu. Segundo, porque é um filme mal feito, não sendo por isso um mau filme. Terceiro, porque é um filme que não faz sentido.

Como que se explodisse após 50 anos de censura e opressão sexual, o sistema hollywoodiano produziu, num  espasmo de insanidade, este objecto peculiar, controverso e muito odiado pelos classicistas. Baseado num romance de Gore Vidal, o filme aproveita o título e o espírito do livro, mas molda-o à sua maneira. E que maneira!: homo-bi-trans-sexualidade, pornografia, feminismo, travestismo, racismo, formalismo, patriotismo, e outros; o filme tira todo e qualquer pingo de seriedade que estes ismos possam ter, arrasa-os e humilha-os, como uma Dominatrix espezinha o seu escravo. Nem sequer o tenta esconder: é um ataque frontal ao convencionalismo de Hollywood e da sociedade americana do pós-guerra. 

É um filme mal feito por ser tão desequilibrado no ritmo e no desenvolvimento da história, e pelos erros crassos tanto de montagem, realização e interpretação. Mas é precisamente por isso que me fascina tanto. Imaginem um filme trash feito com um generoso orçamento, com estrelas de topo, e acesso ilimitado ao arquivo de clássicos da 20th Century Fox. Imaginem um Russ Meyer com uma sensibilidade queer, e com um (falhado) sentido de humor de inspiração Marxista (dos Irmãos, não do Karl). Conseguem imaginar?

Myra só pode ter sido, como disse, fruto de uma decisão tomada à pressa por um qualquer subdirector de produção da Fox, num tempo em que Hollywood atravessava uma das suas piores crises, e em que os movimentos libertários inflamavam a sociedade. Tentou-se uma aproximação a essa nova realidade, tentou-se aproximar o clássico do revolucionário. Foi um tiro no escuro.
Algumas das maiores vedetas dos anos dourados foram contratadas. Destacam-se duas: Mae West e John Huston. A primeira, lembrada como a diva picante dos anos 30 e 40, ultrapassa com esta Leticia Van Allen em muito a subtileza do seu lendário come up and see me sometime, e entra  num "galdéria mode" a que nenhuma outra diva, por muito que votada ao esquecimento, alguma vez recorreu para tentar um return às luzes da ribalta. 
John Huston nunca encarnou homem mais abjecto que este Uncle Buck, um cowboy punheteiro que gere uma escola de actores para fins pessoais nada puritanos. Ambos viram a sua respeitabilidade seriamente afectada depois de Myra

Tudo isto faz do filme um hino ao nonsense. É (porque para se gostar dele tem de ser visto assim) uma homenagem ao cinema clássico americano; uma homenagem, no entanto, muito sui generis: a lenda é arrombada do seu pedestal dourado e intocável, violentada e ridicularizada, e elevada a um novo pedestal, em nada parecido com o primeiro - arriscaria chamar-lhe um pedestal queer, mas não quero abusar desta palavra, que parece servir para tudo e não querer dizer nada. Mais justo será dizer que é a reabilitação da lenda à luz da nova sociedade dos anos 70, uma sociedade que consegue ver na depravação e no deboche algo de admirável e fantástico.
Correndo o risco de ser mais brejeiro que a Katyzinha (mas hão de me desculpar quando virem o filme), resumo tudo isto a uma frase, em bom português da minha terra: 
Nunca o cinema clássico americano foi tão bem enrabado como em Myra Breckenridge. E que bem lhe soube. 

Os filmes do Código

Com este post pretendo dar início a uma série de notas de rodapé sobre o Cinema Queer. É um dos assuntos que mais me fascina e, paradoxalmente, um dos a que menos atenção tenho dado aqui no blog.


O código em questão é aquele que ditava os temas proibidos no cinema clássico de Hollywood dos anos 30 a 60 - o Código Hays. Incluo uma breve citação que explica na perfeição o tell or not to tell deste período áureo do cinema americano:

Existe nos E.U.A. um código da produção [cinematográfica] – o famigerado Código Hays (do nome de William H. Hays, seu inspirador principal) – datado de 1930, mais ou menos modificado posteriormente, e que indica um certo número de proibições. 
O argumento de um filme nunca deve aprovar a eutanásia nem justificar a vingança, pelo menos no que diz respeito à época contemporânea. A imagem não deve mostrar em pormenor assassínios brutais, e a técnica do crime de morte, sob a forma que se encontra descrita na literatura, que não pode ser imitada. O emprego das armas de fogo tem de ser reduzido ao essencial. A descrição das perversões sexuais, subentendidas ou não, é interdita. Nunca se mostrará o parto, nunca se pronunciará a palavra aborto. São igualmente proibidas as blasfémias intencionais e todas as afirmações irreverentes ou grosseiras. As cenas em que alguém se despe são de evitar, assim como a exposição de certas partes do corpo humano, entre as quais o umbigo. O adultério e todo o comportamento sexual ilícito, por vezes necessário à construção da intriga, não devem ser tratados explicitamente, nem justificados nem apresentados a uma luz atraente. Não se deve nunca ridicularizar qualquer fé religiosa, e os ministros do culto, no exercício das suas funções, jamais serão apresentados sob um aspecto crapuloso ou cómico.
in “A Crise de Hollywood” (1967) por Paul e Jean-Louis Leutrat

As questões LGBTs, enquanto "perversões sexuais", eram, desta forma, banidas do grande ecrã. Pelo menos de forma explícita, já que o subentendido em questão só o é de facto se o censor for dotado da inteligência necessária para entender o que está sub. A história mostra-nos que, neste como noutros domínios, o lápis azul sempre se mostrou demasiado opaco para conseguir ver para além do literal das palavras. Ou das imagens.

*

Suddenly, Last Summer (1959) é o primeiro filme de que quero falar. Realizado por um gigante de Hollywood, J. L. Mankiewicz (All about Eve, Cleopatra) é uma adaptação da peça de Tennesse Williams com o mesmo nome. Elizabeth Taylor, Monty Clift e Katharine Hepburn interpretam (porque já não temos elencos assim?..).
É a história de um fantasma, e da sua inominável sexualidade. Tennesse Williams não teve esse problema no teatro (o povo abomina o teatro, não faz lá falta a censura), em que o coming out é feito no momento oportuno do desenrolar da acção. Mas no ecrã é impossível fazê-lo - palavra proibidíssima!, apesar de nela estar o filme todo.
É por isso que os filmes desta época que tratam das questões da sexualidade são verdadeiramente fascinantes! A subtileza do diálogo, o simbolismo da mise-en-cène, a tensão psicológica, elevam-se, pela proibição do explícito, a um requinte delicioso. 


*

Advise & Consent (1962). Otto Preminger fazia o que queria e ninguém o impedia. Não deve ter havido realizador ou produtor mais maldito aos olhos da censura de Hollywood. Cada novo filme seu apontava a mira a um dos temas proibidos pelo código, e esticava a paciência e permissividade dos censores a limites que mais nenhum realizador conseguiu. Prova disso: pela primeira vez na história do cinema americano vemos um bar gay na tela. Corria o ano de 1962.
O filme é um "thriller" político passado durante os anos do MacCarthismo, em que as vidas, perfis e ideologias de vários senadores americanos são postas em confronto. É a política em estado puro: homens que se deparam com as perigosas questões do nacionalismo, da privacidade, do poder, da integridade moral e (só faltava) da sexualidade.
Mesmo não me estendendo muito no desenrolar do enredo para evitar spoilers, não custa adivinhar que um desses senadores é gay. E, como a política trás sempre à tona o melhor do Homem, logo desde o início vemos o promissor e exemplar jovem senador ser chantageado pelos seus adversários no Senado.
O filme analisa os limites morais do julgamento político, tendo como base uma "perversão sexual". Ao por a questão nestes termos, o filme transforma o homossexual (ainda sem o seu (proibidíssimo) nome científico) em vítima. E consegue-o, pelo menos, em dois sentidos: vítima do egoísmo e sede de poder dos homens; e vítima de um sistema que o sufoca até ao desespero. Quando cabe julgar, no final (uma "caça às bruxas" MacCarthista tem lugar na segunda parte do filme), o que define ao certo a acção moral e íntegra, é na história trágica do jovem senador que o filme encontra a sua força emocional.


*

Caged (1950). O último filme deste post não é um filme LGBT, mas pertence certamente ao conjunto de obras que define o cinema queer pré-Stonewall. 
Não é um filme LGBT porque a única personagem que assim podemos supor sem embarcar em especulações ambiciosas é uma criminosa, líder da máfia prisional, devoradora de rapariguinhas delicadas (como a protagonista do filme); é, obviamente, tida como uma das más da fita e isso não prestigia a "causa". Ainda assim, um filme que transpira feminismo em cada frame, com dezenas de mulheres enclausuradas num cenário tipicamente "masculino" (como eram representadas as prisões à luz dos anos 50), pela irreverência do tema numa altura em que a sociedade não consentia às mulheres que usassem calças; ainda assim, dizia, é um filme queer
Feminismo e causa LGBT sempre andaram de mãos dadas. As lésbicas dos anos 50 eram duplamente discriminadas, e subjugadas a duas visões do mundo que as oprimiam: o machismo e o heterossexismo. Não admira que tenham visto neste filme representadas as suas frustrações e o seu protesto. 
Da história: é o "coming of age criminal" de uma fragilizada e inocente jovem mulher, presa por cumplicidade num assalto em que o seu marido é morto. Nunca mais arrependida do seu acto esteve a pobre criatura do que antes de ser condenada, e entrar nessa rotina sufocante que substitui o arrependimento pela sede de vingança e a inocência pelo ódio.
De alguma maneira, pode ver-se nesta união de mulheres atraiçoadas pelo mundo e desfiguradas pelo sistema opressor um apelo à luta contra as duas visões que referi em cima. Fosse o cenário outro, e outras as protagonistas, e seria bem diferente o inimigo opressor (a religião, o poder político, a sociedade de classes,...). Não sendo esse o caso, é esta a ponte para o mundo queer que me surge quando vejo o filme.
Para não falar do seus méritos artísticos, mas já não há tempo.


*
[nota: falta aqui um obrigatório, provavelmente o melhor filme "lésbico" desta série de filmes do Código. Trata-se de The Children's Hour (1961) de William Wyler, com o irresistível duo formado por Audrey Hepburn e Shirley MacLaine. Terá, num futuro próximo, o seu devido espaço aqui no blog.]

9.3.11

8.3.11

"love" story

(true story): jovem asiático gay, residente em Hong Kong, conhece jovem alemão gay, que veio a esta cidade para um intercâmbio académico de seis meses. Jovem asiático apaixona-se por jovem alemão que no início do intercâmbio tem demasiado tempo livre e poucos ou nenhuns amigos neste canto do mundo. Passado dois meses, jovem alemão já não tem tempo nem para respirar por causa dos estudos; ainda assim, é um dos gajos mais populares da faculdade, e está sempre em festas e viagens. Jovem asiático fica na merda. Os dois jovens, no entanto, não vêem nada de mal na relação, apesar de nem sequer falarem deste assunto. Juram continuar com uma "coisa" à distância (de 10.000km) quando jovem alemão voltar para a terra natal, daqui a uns meses. Em pouco mais de 60 dias de namoro (oficial), jovem asiático e jovem alemão resolveram já que quando acabaram os seus cursos um deles se mudará para a terra natal do outro, para viverem felizes juntos.

Isto é gozar com os românticos.

28.2.11

Micro-cosmopolita

O cosmopolitismo das grandes metrópoles deve ser um mito (suburbano).

Em Hong Kong há uma revista gay gratuita, a DS Magazine. É um guia extremamente útil, para além de ter duas ou três reportagens que valem a pena ler. Ora, segundo a revista, este é o panorama queer da cidade: 18 bares, 17 saunas, 17 "massage places", 4 lojas (sex shops, roupa...), 2 "lesbian places" (as categorias são do guia, não minhas), 2 livrarias, uma agência de viagens e uma associação. 
Ainda estou para entrar num bar - não surgiu a oportunidade nem a companhia; saunas e massagens não são muito a minha onda; do resto interessa-me sobretudo as duas livrarias. Essas já as visitei.

A primeira, numa zona bem movimentada de Hong Kong, fica num apartamento de um complexo habitacional enorme. Não é raro procurarmos por lojas que ficam no apartamento D do 21º andar de um prédio para o qual se entra por uma porta estreita, esmagada entre um Starbucks e uma loja de produtos medicinais chineses. A tal livraria fica num destes apartamentos: uma sala minúscula iluminada por uma luz de hospital, uma secretária que apoia um homenzinho indiferente aos clientes que entram e, à volta - livros? Não; porno. Uma estante de DVDs, uma estante de dildos, um cabide com lingerie e roupa fetichista e, noutra estante, revistas - folhas de papel, algumas palavras, mas definitivamente não livros. Em frente à secretária há um corredor apertado que vai dar a uma sala com sofás. Hum, pois. Vim-me logo embora.
A segunda livraria, também metida nos confins de um complexo urbanístico, era uma loja de comics japoneses. Ou assim pensava, até que um gajo gordo que estava atrás do que parecia um guiché das finanças, a ver uma série americana aos berros; até que esse ser, dizia, me perguntou o que eu queria. Disse-lhe "gay books" (não adianta ter um discurso muito elaborado, nem eles percebem nem têm muita estima pela eloquência). Então, carrega numa buzina e abre uma porta de madeira invisível até àquela altura, que dava para o quarto onde ele estava sentado: outra divisão cheia de comics mas, desta vez, pornográficos. Havia também bastantes filmes (não porno), coisas muito óbvias e, ao contrário do que procurava, ocidentais; também posters, calendários, mais dildos e outros brinquedos. Livros livros, nem sinal deles. Ainda lá perdi algum tempo a ver se encontrava alguma coisa de interessante entre os comics. Mas, fechados em embalagens de plástico, e em japonês, não tive muita sorte. Eventualmente fartei-me e voltei para casa.

Cá temos: uma metrópole onde vivem 7 milhões de pessoas, o mercado mais liberal e dinâmico do mundo, um aglomerado civilizacional que gera apenas duas "livrarias" lgbt, empestadas de dildos e vídeos porno. Pergunto-me o que haverá nas sex shops?! Livros, talvez.
Não há melhor exemplo que possa sustentar o mito que referi na primeira linha. Lembro-me de há uns anos ter entrado numa livraria na Chueca, em Madrid, e de ter visto pela primeira vez, materializada à minha frente, a tão apregoada cultura queer, na forma de dezenas de estantes de livros, outras tantas de DVDs, música, vinis, cartazes, memorabilia, bandeiras, merchandising diverso, enfim. Dildos e porno também, num canto à parte; e até esta secção tinha bem mais gosto do que o que se vê por aqui. 
Pensei eu na altura - se Madrid é assim, como será em Londres, Berlim, Tóquio, San Francisco e Nova York? (e Hong Kong?)
Melhor, espero...