28.2.11

Micro-cosmopolita

O cosmopolitismo das grandes metrópoles deve ser um mito (suburbano).

Em Hong Kong há uma revista gay gratuita, a DS Magazine. É um guia extremamente útil, para além de ter duas ou três reportagens que valem a pena ler. Ora, segundo a revista, este é o panorama queer da cidade: 18 bares, 17 saunas, 17 "massage places", 4 lojas (sex shops, roupa...), 2 "lesbian places" (as categorias são do guia, não minhas), 2 livrarias, uma agência de viagens e uma associação. 
Ainda estou para entrar num bar - não surgiu a oportunidade nem a companhia; saunas e massagens não são muito a minha onda; do resto interessa-me sobretudo as duas livrarias. Essas já as visitei.

A primeira, numa zona bem movimentada de Hong Kong, fica num apartamento de um complexo habitacional enorme. Não é raro procurarmos por lojas que ficam no apartamento D do 21º andar de um prédio para o qual se entra por uma porta estreita, esmagada entre um Starbucks e uma loja de produtos medicinais chineses. A tal livraria fica num destes apartamentos: uma sala minúscula iluminada por uma luz de hospital, uma secretária que apoia um homenzinho indiferente aos clientes que entram e, à volta - livros? Não; porno. Uma estante de DVDs, uma estante de dildos, um cabide com lingerie e roupa fetichista e, noutra estante, revistas - folhas de papel, algumas palavras, mas definitivamente não livros. Em frente à secretária há um corredor apertado que vai dar a uma sala com sofás. Hum, pois. Vim-me logo embora.
A segunda livraria, também metida nos confins de um complexo urbanístico, era uma loja de comics japoneses. Ou assim pensava, até que um gajo gordo que estava atrás do que parecia um guiché das finanças, a ver uma série americana aos berros; até que esse ser, dizia, me perguntou o que eu queria. Disse-lhe "gay books" (não adianta ter um discurso muito elaborado, nem eles percebem nem têm muita estima pela eloquência). Então, carrega numa buzina e abre uma porta de madeira invisível até àquela altura, que dava para o quarto onde ele estava sentado: outra divisão cheia de comics mas, desta vez, pornográficos. Havia também bastantes filmes (não porno), coisas muito óbvias e, ao contrário do que procurava, ocidentais; também posters, calendários, mais dildos e outros brinquedos. Livros livros, nem sinal deles. Ainda lá perdi algum tempo a ver se encontrava alguma coisa de interessante entre os comics. Mas, fechados em embalagens de plástico, e em japonês, não tive muita sorte. Eventualmente fartei-me e voltei para casa.

Cá temos: uma metrópole onde vivem 7 milhões de pessoas, o mercado mais liberal e dinâmico do mundo, um aglomerado civilizacional que gera apenas duas "livrarias" lgbt, empestadas de dildos e vídeos porno. Pergunto-me o que haverá nas sex shops?! Livros, talvez.
Não há melhor exemplo que possa sustentar o mito que referi na primeira linha. Lembro-me de há uns anos ter entrado numa livraria na Chueca, em Madrid, e de ter visto pela primeira vez, materializada à minha frente, a tão apregoada cultura queer, na forma de dezenas de estantes de livros, outras tantas de DVDs, música, vinis, cartazes, memorabilia, bandeiras, merchandising diverso, enfim. Dildos e porno também, num canto à parte; e até esta secção tinha bem mais gosto do que o que se vê por aqui. 
Pensei eu na altura - se Madrid é assim, como será em Londres, Berlim, Tóquio, San Francisco e Nova York? (e Hong Kong?)
Melhor, espero...

14.2.11

Un petit cliché

Já lá vai algum tempo desde o último post. E já lá vai um tempo considerável desde o último post "a sério", sem vídeos ou música, e com mais de duas linhas de prosa.
Nestes últimos dois meses a minha vida mudou muito, ao ponto de me deixar sem tempo e assunto para este blog. Deixei a confortável e caseirinha cidade do Porto, deixei os amigos e a família com a promessa de voltar daqui a uns meses e vim, sozinho, trabalhar para uma metrópole asiática com quase tantos milhões de habitantes como Portugal continental.
Quando a vida nos atira para estas aventuras é tão fácil erguer a cabeça no início e jurar a pés juntos que tudo vai correr bem. Tão fácil! Mas o tempo é implacável. Com os dias e as semanas que passam, vai com eles o fascínio inicial, e se nada lá estiver para o substituir - o trabalho, os amigos, as paixões - o coração começa a apertar.

Após preâmbulo melodramático, a nota introdutória:
Sou contra a forma gratuita com que se escreve sobre a tristeza. Percebo as razões que levam muita gente a fazê-lo. Não gosto da pretensão que a acompanha, o consolo de esperar que quem lê se reveja nessas palavras, e se sinta solidário por quem as escreve. Não gosto, mas percebo. E sabe tão bem o desabafo... Pois, então, que não despeje um desabafo; que conte uma história! Nada contra as boas histórias.
Mas haverá na verdade alguma diferença? Ou não passa isto tudo do mais básico jogo de palavras? Provavelmente mais não é do que uma forma de branquear o meu próprio pretensiosismo... Provavelmente, mas que se foda.

Há cerca de três anos começou a dar na Fox Life uma sitcom americana que tinha como protagonistas um casal de amigos nova-iorquinos. Ela uma design judia de talento, ele um advogado homossexual do Connecticut. Isto soa tanto a cliché da minha parte que até me arrepio; mas a verdade é que, há cerca de três anos, descobri e logo me tornei um fervoroso seguidor das desventuras de Will & Grace. Predictable queen? You bet.
Ora bem, nessa altura a minha vida ainda não tinha ganho as seis cores do arco-íris que a série mostrava tão vivas e reais. Eu sabia que o Porto não era Nova York, e sabia que eu não era o Will (para o bem e para o mal); e sabia que personagens como a Karen não existem, infelizmente, senão no domínio da ficção (continuo à espera que alguém contrarie esta minha certeza, ansiosamente continuo à espera que alguém o faça!). Ainda assim, era impossível não reconhecer aquilo que a série me mostrava, da forma mais directa possível: a simples possibilidade de ter uma vida normal e... out.
É verdade, já mo tinham dito, já o tinha lido, já o tinha ouvido centenas de vezes. Mas não acreditava. Quando se pensa que, por dar um passo em frente, arriscamos tudo - o futuro, os amigos, as expectativas e a felicidade - não vamos em cantigas. Não chega ouvir e compreender, é preciso sentir para acreditar. E eu via (e sentia), tão simples e clara como no ecrã, a possibilidade de abrir esta porta ao meu grupo de amigos e livremente falar sobre esse meu eu, poder falar das paixões e das desilusões, e de um dia ser um dos felizes "comprometidos" do grupo; de fazer parte de um movimento, de tentar mudar as coisas (mesmo sem estar na primeira linha), de tentar juntar as peças e formar qualquer coisa de expressivo e "nosso" a que alguém pudesse chamar cultura; de conseguir finalmente vislumbrar o longo prazo, de me imaginar daqui a 30 anos, em sonhos e ambições homéricas, e pensar - "é possível".

Este texto já ultrapassou o dramatismo que eu tanto queria tentar evitar ao início; mas continuo só mais uma linhas. 
Tudo isso aconteceu nestes últimos três anos. Tudo, letra por letra. Não subscrevo nenhum testemunho que acabe com "and then my life was changed forever"; no entanto, penso nos meses de ignorância que a série me poupou. E naqueles dias em que me sentia em piloto automático e sem grande vontade de me levantar na manhã seguinte, ver uns episódios de Will & Grace actuava como o mais eficaz antidepressivo. Era a minha porta secreta para a Queerlight Zone - somewhere over the rainbow.
Prometi a mim mesmo (numa daquelas promessas do quotidiano tão sagradas para nós próprios como as peregrinações a Fátima) que só veria o último episódio da série, o Finale, depois de ver e rever todos os outros 192 episódios, e de me preparar pessoal e psicologicamente para o veredicto final. Estava com medo de descobrir o que se escondia por atrás da cortina.

Ontem, dia 14 de Fevereiro (puta da ironia), três anos depois. Sozinho, numa metrópole estranha a mais de dez mil quilómetros de casa. Os amigos que me esperam, o fascínio aventuresco que já se esgotou, o rude sentimento de "and now what?". Ontem decidi que estava na altura de enfrentar o Finale. E assim fiz.

spoiler  1 . 2 . 3

Pronto, já chega, fora da cama!  
(and just imagine the possibilities). 

1.1.11

2011, or «god knows we could use a little joie de vivre!»

La musique, la danse, le son, la lumière!
Les petites jolies siens des belles bouquetières,
Sur la belle passerelle des Folies Bergère.
Pas de mystères, le spectacle est
tout a fait decouvert.
"Et pas trop cher"
Viens ce soir avec moi
aux Folies Bergère!


bom ano!

1.12.10

fact#1542


OBRIGATÓRIO ver até ao fim!

Destino

Hoje conheci um rapaz muito interessante, e giro, barman de profissão. Não daqueles putos cor-de-laranjas e semi-nus que encontramos sempre atrás dos balcões das discotecas mas que não sabem distinguir um gin de um rum; era um barman com três anos de formação profissional e larga experiência em hotéis nacionais e alguns lá fora. Eu estava completamente embriagado com o rapaz. Foi uma pena termos estado tão pouco tempo à conversa.

Pensando bem, um barman seria o meu namorado ideal. Como seria feliz com boa bebida e um bom gajo. Que visão maravilhosa...
O destino deve-nos ter juntado por alguma razão.

12.11.10

O youtube fez-me ganhar o dia / Youtube has made my day. Estou tão contente! / I'm so gay!



Ruth Wallis devia ser tão grande no mundo queer como, digamos, Liza Minnelli. Para mim, bicha só é verdadeiramente bicha se já tiver feito show ao som de uma das suas músicas. Check.

10.11.10

Bichices da minha infância


Penso que isto foi antes da minha descoberta do Nelo. Aquele "Olhá magra! Olhá tope modéle!!!" ficou-se-me marcado na memória. Andei muitas semanas a gritar isto em plenos pulmões pela rua fora. Quando a gente se é catraia pode-se fazer destas coisas! Agora só o faço quando ponho os saltos, à noite.

6.11.10

playlist#6

Por cortesia da Popota (sim, a hipopótamo do Modelo) vamos passar a ouvir uma versão adulterada do clássico "Daddy Cool" dos Boney M. ininterruptamente nos anúncios de televisão durante os próximos dois meses. Pode ser que disso advenha algum bem: que o Disco volte a estar na moda!



29.10.10

Braga é Divine!

Balanço muito positivo da primeira sessão da Mostra de Cinema Queer de Braga, que teve ontem lugar no Restaurante-Bar Balanz, ao centro da cidade. Um público atento, descontraído e divertido assistiu a mais de hora e meia de deboche visual protagonizado por Divine (de John Waters), enquanto que outra Divine (a Jimmy, de Guimarães) preparava o show que se seguiu ao filme e que arrancou demoradas gargalhadas da assistência. 

Transcreve-se agora o texto da folha de sala distribuída como introdução ao ciclo e ao filme de John Waters, Pink Flamingos. Escrito pour moi, entenda-se.

***


«No site oficial do clube de fãs de John Waters (dreamlandnews.com) é-nos apresentada a lista das principais referências artísticas do realizador. Vale a pena, porventura, referi-las uma a uma: Ed Wood, William Castle, Russ Meyer, Kenneth Anger, Richard Kern, Ingmar Bergman, Federico Fellini, Nick Zedd, R.W. Fassbinder, Andy Warhol, Walt Disney, The Wizard of Oz, Diana Arbus e Herschell Gordon Lewis. Nesta brevíssima introdução ao cinema de John Waters (e ao Cinema Queer) a longa enumeração que constitui a última frase pode parecer supérflua. Pelo contrário, estes são nomes essenciais para perceber a história, a estética e a simbologia do Cinema Queer - sobretudo o cinema pós-John Waters. Foi ele o primeiro a reunir tão ricas e diversas influências e não será, por isso, abusivo reconhecê-lo como o primeiro realizador assumidamente queer do cinema americano.

1972, ano do lançamento de Pink Flamingos. Três anos antes, na Greenwich Village de Nova York, os infames Stonewall Riots haviam gerado espontaneamente o Movimento LGBT enquanto acção popular organizada. Em 1970 realizava-se, na mesma cidade, a primeira Marcha do Orgulho Gay. Nesse mesmo ano de 72, um anónimo analista financeiro de Wall Street mudava-se para a Castro Street em San Franscisco para, cinco anos depois, se tornar o primeiro homem assumidamente gay a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos. Os seventies foram definitivamente a década chave na história dos direitos LGBT.

No cinema, como seria de esperar, a mudança também se fez sentir. Durante os anos sessenta, grandes nomes da Hollywood clássica tentaram inúmeras vezes (com inquestionável sucesso de público e crítica) beliscar o famigerado Código Hays (a censura do cinema americano), introduzindo a questão da homossexualidade cada vez mais explicitamente nas suas produções (sempre com grandes estrelas, enormes orçamentos e uma vasta distribuição). William Wyler, Otto Preminger, Joseph. L. Mankiewicz, John Huston, entre outros realizadores dos anos dourados da indústria, assinaram para os grandes estúdios de Hollywood filmes que lidavam com personagens homossexuais à beira do abismo emocional. Simultaneamente, surgiam no underground cinematográfico os pioneiros daquilo que mais tarde se rotularia como Cinema Queer. E é destes que importa falar agora.

Atirado para os domínios da série B (na verdade, C, D, E…), o Cinema Queer partilhava os mesmos problemas que os outros subgéneros renegados, nomeadamente a nível financeiro e de produção. Os primeiros filmes queer são filmes de baixíssimo orçamento, que recorrem a actores amadores, cenários mal amanhados, e a técnicas de filmagem muito duvidosas. Os filmes de terror de Ed Wood, William Castle e H. G. Lewis eram bem conhecidos (e apreciados) por essas características, e que logo se tornavam objectos de culto. Eram, para além disso, a única “escola” que os cineastas queer tinham à sua disposição. Os seus mestres eram os mestres da série B.

Ficar à margem do mainstream tem as suas vantagens; a de conseguir escapar à censura é, sem dúvida, uma das principais. Nudez, sexo explícito, violência gratuita, “depravações da carne” e outros temas proibidos tornaram-se a fixação de autores como Russ Meyer, Andy Warhol e Kenneth Anger - estes dois últimos tidos como os pioneiros do género queer americano (e Fireworks [1947] de Anger como o primeiro registo explicitamente gay). Estes autores “depravados” viriam a inspirar tremendamente a geração seguinte e cineastas como Richard Kern, Nick Zedd (para citar apenas os nomes em analise) e o próprio John Waters.

Da Europa vêm as influências do novo cinema do pós-guerra e a libertação dos cânones artísticos de Hollywood. Os realizadores queer nunca se viram como meros activistas dos direitos LGBT; procuravam a arte! – se conseguissem esboçar algo parecido com uma arte queer, tanto melhor. O onirismo humanista de Fellini, o existencialismo de Bergman e o sentimentalismo trágico de Fassbinder (e ainda a inconvencionalidade da Nouvelle Vague) conduzem essa busca em diferentes direcções. Funcionam igualmente como instrumentos essenciais para representar a nova visão de sociedade que o Cinema Queer quer introduzir no mainstream americano.

Finalmente, o mote de todo o movimento e a legitimação da causa, o somewhere over the rainbow. Não foi por acaso que na primeira Marcha Gay os manifestantes recorreram às canções de Judy Garland como grito de intervenção. Se o Cinema Queer tentava alguma mudança social (manifesta ou cultural) era a de transformar aquele claustrofóbico Kansas a preto-e-branco que se tinha tornado a América do pós-guerra, num mundo de Oz vibrante, colorido e alegre (gay) - uma sociedade em que não existissem armários, repressões, códigos, mensagens subliminares, culpa, vergonha, and all that jazz. Enfim, o Sonho (o Americano), o grande professor da idade da inocência, o único ideal que faz sentido quando temos 5 anos e todos os problemas do mundo (aprendemos com a Disney) fazem parte de um Kansas a preto-e-branco e nunca de um Oz governado pela lei do benevolente Feiticeiro da Cidade Esmeralda. O único legado que está presente em quase em todo o Cinema Queer é o do somewhere over the rainbow, ainda que mais ou menos assumido. É quase impossível fugir dele, mesmo se para lá do arco-íris houver um Sonho a precisar de ser reabilitado (o New Queer Cinema tentou-o nos anos noventa). Mas como voltar a Oz se, como cantam os Scissor Sisters, the grass is dead, the gold is brown and the sky has claws