25.10.10

O mundo 0101001101

Algumas décadas atrás ainda não havia sido desenvolvido o sistema de socialização que impera hoje e que assenta: 1) na comunicação (quando esta existe) escrita, baseada em mensagens curtas e directas; 2) na não coincidência física entre os agentes dessa comunicação; 3) na não existência de um espaço físico em que essa comunicação toma lugar. Antes dessa invenção o grosso da comunicação "social" era oral, decorria frente-a-frente (presencial, portanto) e tomava lugar num determinado espaço físico (por convenção, público).
Eis que alguém (perdoem-me a ignorância e a preguiça para ir à Wikipédia) inventou a World Wide Web. E então tudo mudou.

No que toca à comunidade LGBT (mas não só, obviamente), chats, redes sociais, messengers, mircs, etc, etc, vieram revolucionar os processos de socialização, interrelacionando indivíduos que, efectivamente, se encontravam desligados deste "mundo", aumentando a troca de opiniões, desejos e interesses, facilitando relacionamentos e outros tipos de "matching emocional", fomentando processos de coming out, internos e externos... Está aqui subjacente aquele típico discurso que sempre ouvimos nas análises feitas ao mundo social pós-difusão das tecnologias da comunicação (e informação) baseadas nos avanços informáticos.

Sou um fervoroso apologista do progresso tecnológico e civilizacional. Considero que o pior cenário se verifica quando uma sociedade cai num estado de estagnação criativa que abafa no seu seio o natural desejo de evolução. Mas essa apologia não é incondicional e, para ser de facto sentida e defendida, tem de ser crítica.

A minha visão é uma, efectivamente, crítica do descarte brutal dos antigos meios de socialização (físicos, ou seja, não-virtuais) face ao facilitismo das potencialidades destes novos meios (não físicos, virtuais). Em vez de se procurar um equilíbrio entre estes dois tipos de meios - um equilíbrio que permitisse, a nível pessoal e social (entre outras coisas) relações, dinâmicas e processos de criação e de mudança; em vez disto, dizia eu, assistimos a uma dedicação abusiva (nunca total, ou viveríamos no Matrix) por parte das pessoas aos meios virtuais de socialização.
Ora, já que nunca excluiremos o mundo físico das nossas vidas (provavelmente nem mesmo quando vivermos no Matrix) é expectável começarmos a assistir a um atrofiamento das nossas capacidades de oralidade, de relacionamento e interacção social, de saber estar e saber agir em público, da nossa capacidade de conceber o espaço social como um espaço heterogéneo e criativo em constante mutação (pondo em causa a capacidade de fazer parte desse espaço e, mais ainda, de intervir nele). No espaço virtual poderemos ser réis mas no espaço físico, real, não seremos mais que ilhas isoladas, cada um de nós. É isso que critico e que me preocupa.

Não é também de estranhar certas atitudes relacionadas com a forma como cada um vive a sua orientação sexual (pessoal e socialmente) que chocam tanta gente dentro e fora da Comunidade, e que, em minha opinião, emanam deste particular uso e abuso dos meios virtuais. Entre essas atitudes, a redução da vivência da orientação a práticas sexuais furtivas e desconexas, a abordagens (leia-se engate) que minimizam ao máximo a conversa, a superficialidade no envolvimento com o meio LGBT, ..., por aí fora. E, como reacção natural a isto, o diametralmente oposto (é a dialéctica da coisa): o isolamento extremo, o medo de exposição pela conotação àquelas práticas sexuais, o compromisso (leia-se namoro) imediato e irreflectido quando surge alguém que também vive isolado e com medo. Nenhuma das duas situações é, para mim, tida como desejável.

Esta não pretende ser uma leitura a preto e branco do meio LGBT. Naturalmente isto são caricaturas de comportamentos e atitudes, mas que não deixam de ser, para mim, observáveis e inteligíveis em maior ou menor grau. Relacionar directamente estas atitudes com a dependência extrema dos meios virtuais de socialização será, certamente, abusivo. Mas não podemos deixar de imaginar como uma correspondência mais equilibrada entre os dois tipos de meios poderia mudar alguns comportamentos e fortalecer laços sociais e pessoais.

Agora algo no domínio do sonho (do meu, claro): como seria o mundo se aliássemos, entre outras realidades distintas: 1) as vantagens das tecnologias de comunicação, sobretudo a facilidade e rapidez para "passar a mensagem"; 2) a vida cultural, o gosto pela participação cívica, o espírito que se respirava nos cafés do liberalismo novecentista e do modernismo onde, segundo George Steiner, se idealizou a Europa; 3) o clima de tolerância, iluminação e desmistificação dos preconceitos relacionados com a orientação sexual que a nossa sociedade vai progressivamente conquistando à ignorância. Imaginem-se a viver num mundo assim.
Se a Europa se idealizou nos cafés, e se pretendemos um coisa aproximada em consistência civilizacional e riqueza cultural para o nosso "mundo cor-de-rosa", então temos deixar de idealizá-lo (leia-se vivê-lo) apenas no Gaydar.

24.10.10

Habemus cinemus II: em Braga

Primeiro evento de cinema queer em Braga que pretende dinamizar, através do cinema, a cultura lgbt bracarense e, simultaneamente, promover o diálogo pela igualdade, cujo cartaz segue anexado e que tomará lugar no restaurante-bar Balanz, quinzenalmente à Quinta-Feira.

Os filmes

28 OUT | Pink Flamingos (1972), John Waters *
4 NOV | The Celluloid Closet (1995), Rob Epstein & Jeffrey Friedman
18 NOV | La Mala Educación (2004), Pedro Almodóvar
2 DEZ | My Own Private Idaho (1991) Gus Van Sant
16 DEZ | Shortbus (2006), John Cameron Mitchell

* Sessão especial de Halloween, filme antecedido pelo show de Jimmy Divine

Local: BALANZ Restaurante Bar (Google Maps)

Facebook do evento

23.10.10

A DVDteca

Decidi trasladar alguns DVDs da minha estante para a recém criada "DVDteca Queer" (na estante ao lado). Que vónito, não é? Mais DVDs de colecções do Público ou resgatados daqueles baldes horrorosos da Worten em breve..


Reclames às cores

Mini-Maratona da Publicidade LGBT

Car@s Amig@s,
No próximo Domingo, 24 de Outubro, iremos organizar um pequeno evento dedicado à visualização, comentário e debate em torno da publicidade (comercial e institucional) de temática LGBT. O evento irá decorrer no Clube Literário do Porto a partir das 18h00.
Versos e Reversos da Publicidade LGBT: durante 1h/1h30 serão exibidos anúncios nacionais e internacionais aos mais diversos produtos, serviços e causas que têm a população LGBT como pretexto, tema ou alvo, seguindo-se depois uma pequena tertúlia ou debate.
Para a tertúlia/debate contaremos com a colaboração do Dr. João Paulo Pedroso (ESTSP-IPP) e da Professora Susana Costa e Silva (Univ. Católica).
A entrada é livre e recomendada!
***

Isto não é propriamente LGBT, mas a temática está implícita; e o anúncio (leia-se o gajo) é tão fofinho...


20.10.10

Há ali uma zona

entre as ruas de Cedofeita e do Almada, de Ceuta e dos Bragas, um rectângulozinho de cidade que se está a tornar naquilo a que, esperemos, dentro de uns anos chamaremos o bairro queer do Porto. Os cafés e bares já lá estão (Lusitano, Maria, Casa de Ló, Alfaiate, Rosa Escura, Candelabro, Galerias Lumière, Taboo), nas ruas também já se prova essa cor, já lá está uma sex-shop! (68+1) e algumas galerias; faltam lá as livrarias, os hostels, as residências, as sedes de associações, os eventos e, claro, as festas. A seu tempo, a seu tempo...

19.10.10

Serviço público



A colecção "Exclusivos FNAC" tem vindo a editar uma selecção interessantíssima de cinema de autor e, particularmente interessante e louvável, uma selecção de cinema queer de autor.
O último lançamento dessa colecção é um filme amoroso, uma biografia livre do realizador James Whale (Frankenstein, 1931), respeitado personagem da Hollywood clássica dos anos 20 e 30, que leva uma vida um tantó-quanto alternativa. Vejam o trailer.

17.10.10

playlist#5

dos tempos em que via MTV o dia todo...


Anti-praxe, sim, mas

ontem rendi-me ao charme dos meninos da Tuna Universitária do Minho, que usam um traje bastante diferente do da Academia do Porto - muito mais justo e bem mais sexy. Há qualquer coisa de maroto naquelas meias vermelhas até ao joelho.


Já agora, parabéns à TUM, duplamente premiada no FITU deste ano. Levaram para o Minho o Prémio do Público para melhor tuna.

14.10.10

Isto sou eu no meu mais puro romantismo


Como Fred & Ginger, dançar interminavelmente noite fora, noite dentro, os nossos corpos quentes tão juntos, o luar sobre o topo de um alto edifício art déco debruçado sobre a baía, só interrompidos pelo alvorar da azafama citadina.
(E, se possível, em vez de Ginger, um George. Agora sim: perfeito.)

13.10.10

Brunetto Latini, sodomita

Vi muitos bandos de almas nuas
todas chorando assaz miseramente,
sujeitas a diversos suplícios do fogo.

Umas jaziam em terra de costas;
algumas estavam sentadas em atitude penosa;
e outras andavam sem parar.

As que andavam sem parar eram mais numerosas,
menos numerosas as que jaziam no tormento,
mas maior a sua queixa dolorosa.

Largas chamas choviam lentamente,
sobre a terra areenta, como a neve sobre
os Alpes, quando não sopra o vento.

(...)

Assim encarado pela infame multidão,
fui reconhecido por um deles que me agarrou
pela aba da veste e gritou: «Que maravilha!»

Quando ele dirigiu o braço para mim,
atentei no seu rosto queimado,
a sua fronte enegrecida não impediu

à minha inteligência de o reconhecer;
e inclinando a mão para o seu rosto, respondi:
«Sois vós também aqui, senhor Brunetto?»

Respondeu-me: «Ó meu filho, consente que Brunetto
Latini te siga, deixando, para conversar contigo,
por momentos a fila dos companheiros»

(...)

[Dante:] «Se o meu desejo fosse
satisfeito inteiramente vós permaneceríeis
ainda na companhia da humana natureza;

porque nunca esquecerei, e ela me comove,
vossa cara e boa imagem paterna,
quando no mundo me ensinavas,

de hora em hora, como o homem se imortaliza:
é preciso que, enquanto eu viver, ecoe nas
minhas palavras a gratidão que vos tenho.»

(...)

Nem por isso deixei de continuar a conversar com
o senhor Brunetto, e perguntei-lhe quem eram os
seus companheiros mais célebres e mais eminentes.

Virgílio respondeu-me: «Saber de algum é
proveitoso; dos outros é mais louvável calar,
porque o tempo seria curto para longa narração.

Em suma sabe que todos foram clérigos
e literatos grandes e de grande fama,
mas manchados do mesmo pecado imundo

Prisciano vai com aquela turba infeliz e Francisco
de Accorso
; também haveria podido ver,
se tivesses querido tão asquerosa gente

aquele que pelo Servo dos servos foi transferido
do bispado de Florença para o de Bacchiglione,
onde deixou, morrendo, seus nervos perversamente
estendidos pelo mau uso.

De outros diria ainda; mas eu não posso
ir nem falar contigo mais longamente, porque
vejo aproximar-se outra multidão de condenados.


Os sodomitas da Divina Comédia são gente culta, notável, fraterna e altruísta. Mas pelo pecado imundo são condenados a passar toda a eternidade debaixo de uma chuva de fogo redentora.

Ah, se não fosse pelo belíssimo lirismo medieval de Dante.

9.10.10

More uma moedinha, more uma voltinha

O Fugas deste Sábado dedica a secção "Bar Aberto" à nova sensação (Q?) das Galerias de Paris. Estou em falta: ainda não lá fui bater terreno; transmito-vos, por isso, o que diz o artigo:

Ainda não tinha aberto e já se falava no More Club. "Vai abrir uma discoteca gay na Rua Galerias de Paris", corria pela noite portuense. "É verdade", ri Ricardo, "primeiro diziam isso, depois abriu e chegaram a dizer o contrário". Que gays não entravam. "Não estamos enquadrados", clarifica Ricardo, "estamos abertos a todos". A extravagância na animação [da qual faz parte o motoqueiro dos Village People] que pode remeter para um universo gay é o motor para o que verdadeiramente interessa - envolver as pessoas num ambiente de festa. Constante e descomplexada. "Uma viagem", diz Pedro - e não é à toa que a pista de dança abre com as boas-vindas e o aviso, "vai iniciar uma viagem".

Na verdade este post é só um pretexto para espetar à força a música que vos deixo em baixo aqui no blog. E fazer-vos ver more além. (terrível, eu sei; desculpem.)


6.10.10

O primeiro

Se já leram a TimeOut deste mês sabem perfeitamente que o primeiro filme porno gay português foi feito no Porto. Rodado em Abril e lançado em Julho, inteiramente interpretado por actores amadores, o Gays Invictos tem agora a projecção merecida (? - ainda não o vi; mas merece-a pelo pioneirismo) do guia cultural da cidade.
Eu ajudo à festa e deixo-vos o trailer. Atenção, contém cenas de sexo explícito (yay!!!).

[A sinopse é absolutamente deliciosa: Para um marrão, a vida de estudante não é muito estimulante. Sempre com a cabeça enfiada no meio dos livros, não há motivo para sair de casa. Por isso é bom quando os amigos aparecem. Aí, enfia-se a cabeça em sítios bem mais interessantes. Filmado no Porto, este é o primeiro filme gay português!]

5.10.10

Por enquanto

não ando com grande paciência para escrever. É um sintoma cíclico. Recolher informação, uma fase; despejá-la no blog, outra fase. Tudo o que sai da primeira é extremamente telegráfico; da segunda, extremamente chato.