Algumas décadas atrás ainda não havia sido desenvolvido o sistema de socialização que impera hoje e que assenta: 1) na comunicação (quando esta existe) escrita, baseada em mensagens curtas e directas; 2) na não coincidência física entre os agentes dessa comunicação; 3) na não existência de um espaço físico em que essa comunicação toma lugar. Antes dessa invenção o grosso da comunicação "social" era oral, decorria frente-a-frente (presencial, portanto) e tomava lugar num determinado espaço físico (por convenção, público).
Eis que alguém (perdoem-me a ignorância e a preguiça para ir à Wikipédia) inventou a World Wide Web. E então tudo mudou.
No que toca à comunidade LGBT (mas não só, obviamente), chats, redes sociais, messengers, mircs, etc, etc, vieram revolucionar os processos de socialização, interrelacionando indivíduos que, efectivamente, se encontravam desligados deste "mundo", aumentando a troca de opiniões, desejos e interesses, facilitando relacionamentos e outros tipos de "matching emocional", fomentando processos de coming out, internos e externos... Está aqui subjacente aquele típico discurso que sempre ouvimos nas análises feitas ao mundo social pós-difusão das tecnologias da comunicação (e informação) baseadas nos avanços informáticos.
Sou um fervoroso apologista do progresso tecnológico e civilizacional. Considero que o pior cenário se verifica quando uma sociedade cai num estado de estagnação criativa que abafa no seu seio o natural desejo de evolução. Mas essa apologia não é incondicional e, para ser de facto sentida e defendida, tem de ser crítica.
A minha visão é uma, efectivamente, crítica do descarte brutal dos antigos meios de socialização (físicos, ou seja, não-virtuais) face ao facilitismo das potencialidades destes novos meios (não físicos, virtuais). Em vez de se procurar um equilíbrio entre estes dois tipos de meios - um equilíbrio que permitisse, a nível pessoal e social (entre outras coisas) relações, dinâmicas e processos de criação e de mudança; em vez disto, dizia eu, assistimos a uma dedicação abusiva (nunca total, ou viveríamos no Matrix) por parte das pessoas aos meios virtuais de socialização.
Ora, já que nunca excluiremos o mundo físico das nossas vidas (provavelmente nem mesmo quando vivermos no Matrix) é expectável começarmos a assistir a um atrofiamento das nossas capacidades de oralidade, de relacionamento e interacção social, de saber estar e saber agir em público, da nossa capacidade de conceber o espaço social como um espaço heterogéneo e criativo em constante mutação (pondo em causa a capacidade de fazer parte desse espaço e, mais ainda, de intervir nele). No espaço virtual poderemos ser réis mas no espaço físico, real, não seremos mais que ilhas isoladas, cada um de nós. É isso que critico e que me preocupa.
Ora, já que nunca excluiremos o mundo físico das nossas vidas (provavelmente nem mesmo quando vivermos no Matrix) é expectável começarmos a assistir a um atrofiamento das nossas capacidades de oralidade, de relacionamento e interacção social, de saber estar e saber agir em público, da nossa capacidade de conceber o espaço social como um espaço heterogéneo e criativo em constante mutação (pondo em causa a capacidade de fazer parte desse espaço e, mais ainda, de intervir nele). No espaço virtual poderemos ser réis mas no espaço físico, real, não seremos mais que ilhas isoladas, cada um de nós. É isso que critico e que me preocupa.
Não é também de estranhar certas atitudes relacionadas com a forma como cada um vive a sua orientação sexual (pessoal e socialmente) que chocam tanta gente dentro e fora da Comunidade, e que, em minha opinião, emanam deste particular uso e abuso dos meios virtuais. Entre essas atitudes, a redução da vivência da orientação a práticas sexuais furtivas e desconexas, a abordagens (leia-se engate) que minimizam ao máximo a conversa, a superficialidade no envolvimento com o meio LGBT, ..., por aí fora. E, como reacção natural a isto, o diametralmente oposto (é a dialéctica da coisa): o isolamento extremo, o medo de exposição pela conotação àquelas práticas sexuais, o compromisso (leia-se namoro) imediato e irreflectido quando surge alguém que também vive isolado e com medo. Nenhuma das duas situações é, para mim, tida como desejável.
Esta não pretende ser uma leitura a preto e branco do meio LGBT. Naturalmente isto são caricaturas de comportamentos e atitudes, mas que não deixam de ser, para mim, observáveis e inteligíveis em maior ou menor grau. Relacionar directamente estas atitudes com a dependência extrema dos meios virtuais de socialização será, certamente, abusivo. Mas não podemos deixar de imaginar como uma correspondência mais equilibrada entre os dois tipos de meios poderia mudar alguns comportamentos e fortalecer laços sociais e pessoais.
Agora algo no domínio do sonho (do meu, claro): como seria o mundo se aliássemos, entre outras realidades distintas: 1) as vantagens das tecnologias de comunicação, sobretudo a facilidade e rapidez para "passar a mensagem"; 2) a vida cultural, o gosto pela participação cívica, o espírito que se respirava nos cafés do liberalismo novecentista e do modernismo onde, segundo George Steiner, se idealizou a Europa; 3) o clima de tolerância, iluminação e desmistificação dos preconceitos relacionados com a orientação sexual que a nossa sociedade vai progressivamente conquistando à ignorância. Imaginem-se a viver num mundo assim.
Se a Europa se idealizou nos cafés, e se pretendemos um coisa aproximada em consistência civilizacional e riqueza cultural para o nosso "mundo cor-de-rosa", então temos deixar de idealizá-lo (leia-se vivê-lo) apenas no Gaydar.




























