21.10.10
20.10.10
Há ali uma zona
entre as ruas de Cedofeita e do Almada, de Ceuta e dos Bragas, um rectângulozinho de cidade que se está a tornar naquilo a que, esperemos, dentro de uns anos chamaremos o bairro queer do Porto. Os cafés e bares já lá estão (Lusitano, Maria, Casa de Ló, Alfaiate, Rosa Escura, Candelabro, Galerias Lumière, Taboo), nas ruas também já se prova essa cor, já lá está uma sex-shop! (68+1) e algumas galerias; faltam lá as livrarias, os hostels, as residências, as sedes de associações, os eventos e, claro, as festas. A seu tempo, a seu tempo...
19.10.10
Serviço público
A colecção "Exclusivos FNAC" tem vindo a editar uma selecção interessantíssima de cinema de autor e, particularmente interessante e louvável, uma selecção de cinema queer de autor.
O último lançamento dessa colecção é um filme amoroso, uma biografia livre do realizador James Whale (Frankenstein, 1931), respeitado personagem da Hollywood clássica dos anos 20 e 30, que leva uma vida um tantó-quanto alternativa. Vejam o trailer.
O último lançamento dessa colecção é um filme amoroso, uma biografia livre do realizador James Whale (Frankenstein, 1931), respeitado personagem da Hollywood clássica dos anos 20 e 30, que leva uma vida um tantó-quanto alternativa. Vejam o trailer.
17.10.10
Anti-praxe, sim, mas
ontem rendi-me ao charme dos meninos da Tuna Universitária do Minho, que usam um traje bastante diferente do da Academia do Porto - muito mais justo e bem mais sexy. Há qualquer coisa de maroto naquelas meias vermelhas até ao joelho.

Já agora, parabéns à TUM, duplamente premiada no FITU deste ano. Levaram para o Minho o Prémio do Público para melhor tuna.

Já agora, parabéns à TUM, duplamente premiada no FITU deste ano. Levaram para o Minho o Prémio do Público para melhor tuna.
14.10.10
Isto sou eu no meu mais puro romantismo
Como Fred & Ginger, dançar interminavelmente noite fora, noite dentro, os nossos corpos quentes tão juntos, o luar sobre o topo de um alto edifício art déco debruçado sobre a baía, só interrompidos pelo alvorar da azafama citadina.
(E, se possível, em vez de Ginger, um George. Agora sim: perfeito.)
13.10.10
Brunetto Latini, sodomita
Vi muitos bandos de almas nuas
algumas estavam sentadas em atitude penosa;
e outras andavam sem parar.
sobre a terra areenta, como a neve sobre
os Alpes, quando não sopra o vento.
(...)
Assim encarado pela infame multidão,
fui reconhecido por um deles que me agarrou
pela aba da veste e gritou: «Que maravilha!»
Quando ele dirigiu o braço para mim,
atentei no seu rosto queimado,
a sua fronte enegrecida não impediu
à minha inteligência de o reconhecer;
e inclinando a mão para o seu rosto, respondi:
«Sois vós também aqui, senhor Brunetto?»
Respondeu-me: «Ó meu filho, consente que Brunetto
Latini te siga, deixando, para conversar contigo,
por momentos a fila dos companheiros»
(...)
[Dante:] «Se o meu desejo fosse
satisfeito inteiramente vós permaneceríeis
ainda na companhia da humana natureza;
porque nunca esquecerei, e ela me comove,
vossa cara e boa imagem paterna,
quando no mundo me ensinavas,
de hora em hora, como o homem se imortaliza:
é preciso que, enquanto eu viver, ecoe nas
minhas palavras a gratidão que vos tenho.»
aquele que pelo Servo dos servos foi transferido
do bispado de Florença para o de Bacchiglione,
onde deixou, morrendo, seus nervos perversamente
estendidos pelo mau uso.
De outros diria ainda; mas eu não posso
ir nem falar contigo mais longamente, porque
vejo aproximar-se outra multidão de condenados.

todas chorando assaz miseramente,
sujeitas a diversos suplícios do fogo.
Umas jaziam em terra de costas;sujeitas a diversos suplícios do fogo.
algumas estavam sentadas em atitude penosa;
e outras andavam sem parar.
As que andavam sem parar eram mais numerosas,
menos numerosas as que jaziam no tormento,
mas maior a sua queixa dolorosa.
Largas chamas choviam lentamente,menos numerosas as que jaziam no tormento,
mas maior a sua queixa dolorosa.
sobre a terra areenta, como a neve sobre
os Alpes, quando não sopra o vento.
(...)
Assim encarado pela infame multidão,
fui reconhecido por um deles que me agarrou
pela aba da veste e gritou: «Que maravilha!»
Quando ele dirigiu o braço para mim,
atentei no seu rosto queimado,
a sua fronte enegrecida não impediu
à minha inteligência de o reconhecer;
e inclinando a mão para o seu rosto, respondi:
«Sois vós também aqui, senhor Brunetto?»
Respondeu-me: «Ó meu filho, consente que Brunetto
Latini te siga, deixando, para conversar contigo,
por momentos a fila dos companheiros»
(...)
[Dante:] «Se o meu desejo fosse
satisfeito inteiramente vós permaneceríeis
ainda na companhia da humana natureza;
porque nunca esquecerei, e ela me comove,
vossa cara e boa imagem paterna,
quando no mundo me ensinavas,
de hora em hora, como o homem se imortaliza:
é preciso que, enquanto eu viver, ecoe nas
minhas palavras a gratidão que vos tenho.»
(...)
Nem por isso deixei de continuar a conversar com
o senhor Brunetto, e perguntei-lhe quem eram os
seus companheiros mais célebres e mais eminentes.
Virgílio respondeu-me: «Saber de algum é
proveitoso; dos outros é mais louvável calar,
porque o tempo seria curto para longa narração.
Em suma sabe que todos foram clérigos
e literatos grandes e de grande fama,
mas manchados do mesmo pecado imundo
Prisciano vai com aquela turba infeliz e Francisco
de Accorso; também haveria podido ver,
se tivesses querido tão asquerosa gente
Nem por isso deixei de continuar a conversar com
o senhor Brunetto, e perguntei-lhe quem eram os
seus companheiros mais célebres e mais eminentes.
Virgílio respondeu-me: «Saber de algum é
proveitoso; dos outros é mais louvável calar,
porque o tempo seria curto para longa narração.
Em suma sabe que todos foram clérigos
e literatos grandes e de grande fama,
mas manchados do mesmo pecado imundo
Prisciano vai com aquela turba infeliz e Francisco
de Accorso; também haveria podido ver,
se tivesses querido tão asquerosa gente
aquele que pelo Servo dos servos foi transferido
do bispado de Florença para o de Bacchiglione,
onde deixou, morrendo, seus nervos perversamente
estendidos pelo mau uso.
De outros diria ainda; mas eu não posso
ir nem falar contigo mais longamente, porque
vejo aproximar-se outra multidão de condenados.

Os sodomitas da Divina Comédia são gente culta, notável, fraterna e altruísta. Mas pelo pecado imundo são condenados a passar toda a eternidade debaixo de uma chuva de fogo redentora.
Ah, se não fosse pelo belíssimo lirismo medieval de Dante.
Ah, se não fosse pelo belíssimo lirismo medieval de Dante.
10.10.10
9.10.10
More uma moedinha, more uma voltinha
O Fugas deste Sábado dedica a secção "Bar Aberto" à nova sensação (Q?) das Galerias de Paris. Estou em falta: ainda não lá fui bater terreno; transmito-vos, por isso, o que diz o artigo:
Ainda não tinha aberto e já se falava no More Club. "Vai abrir uma discoteca gay na Rua Galerias de Paris", corria pela noite portuense. "É verdade", ri Ricardo, "primeiro diziam isso, depois abriu e chegaram a dizer o contrário". Que gays não entravam. "Não estamos enquadrados", clarifica Ricardo, "estamos abertos a todos". A extravagância na animação [da qual faz parte o motoqueiro dos Village People] que pode remeter para um universo gay é o motor para o que verdadeiramente interessa - envolver as pessoas num ambiente de festa. Constante e descomplexada. "Uma viagem", diz Pedro - e não é à toa que a pista de dança abre com as boas-vindas e o aviso, "vai iniciar uma viagem".
Na verdade este post é só um pretexto para espetar à força a música que vos deixo em baixo aqui no blog. E fazer-vos ver more além. (terrível, eu sei; desculpem.)
Ainda não tinha aberto e já se falava no More Club. "Vai abrir uma discoteca gay na Rua Galerias de Paris", corria pela noite portuense. "É verdade", ri Ricardo, "primeiro diziam isso, depois abriu e chegaram a dizer o contrário". Que gays não entravam. "Não estamos enquadrados", clarifica Ricardo, "estamos abertos a todos". A extravagância na animação [da qual faz parte o motoqueiro dos Village People] que pode remeter para um universo gay é o motor para o que verdadeiramente interessa - envolver as pessoas num ambiente de festa. Constante e descomplexada. "Uma viagem", diz Pedro - e não é à toa que a pista de dança abre com as boas-vindas e o aviso, "vai iniciar uma viagem".
Na verdade este post é só um pretexto para espetar à força a música que vos deixo em baixo aqui no blog. E fazer-vos ver more além. (terrível, eu sei; desculpem.)
6.10.10
O primeiro
Se já leram a TimeOut deste mês sabem perfeitamente que o
primeiro filme porno gay português foi feito no Porto. Rodado em Abril e lançado em Julho, inteiramente interpretado por actores amadores, o Gays Invictos tem agora a projecção merecida (? - ainda não o vi; mas merece-a pelo pioneirismo) do guia cultural da cidade.
primeiro filme porno gay português foi feito no Porto. Rodado em Abril e lançado em Julho, inteiramente interpretado por actores amadores, o Gays Invictos tem agora a projecção merecida (? - ainda não o vi; mas merece-a pelo pioneirismo) do guia cultural da cidade.Eu ajudo à festa e deixo-vos o trailer. Atenção, contém cenas de sexo explícito (yay!!!).
[A sinopse é absolutamente deliciosa: Para um marrão, a vida de estudante não é muito estimulante. Sempre com a cabeça enfiada no meio dos livros, não há motivo para sair de casa. Por isso é bom quando os amigos aparecem. Aí, enfia-se a cabeça em sítios bem mais interessantes. Filmado no Porto, este é o primeiro filme gay português!]
[A sinopse é absolutamente deliciosa: Para um marrão, a vida de estudante não é muito estimulante. Sempre com a cabeça enfiada no meio dos livros, não há motivo para sair de casa. Por isso é bom quando os amigos aparecem. Aí, enfia-se a cabeça em sítios bem mais interessantes. Filmado no Porto, este é o primeiro filme gay português!]
5.10.10
Por enquanto
não ando com grande paciência para escrever. É um sintoma cíclico. Recolher informação, uma fase; despejá-la no blog, outra fase. Tudo o que sai da primeira é extremamente telegráfico; da segunda, extremamente chato.
29.9.10
Um brinde
Ao cimo da Rua 31 de Janeiro há um grandessíssimo obelisco, guardado ao lado da Igreja de Sto. Ildefonso. Esse obelisco foi erguido em homenagem aos mortos da revolução falhada - para derrube da monarquia e instauração da república - que a rua celebra com o seu nome.
A parte séria já passou. A parte parva: Sugiro irmos beber um copo, dia 5 à noite, em frente a esse símbolo da luta anti-monárquica e da virilidade humana. Duas causas justíssimas!
A parte séria já passou. A parte parva: Sugiro irmos beber um copo, dia 5 à noite, em frente a esse símbolo da luta anti-monárquica e da virilidade humana. Duas causas justíssimas!
28.9.10
26.9.10
Sinais de Fogo
[Nada a ver com Jorge de Sena, absolutamente nada. Roubo-lhe só o título; vem a propósito.]
Enche-me de ternura, quase paterna, na verdade, ver dois rapazes ou duas raparigas a trocarem uns carinhos, sinceros, sem show off, em plena luz e azafama do dia.
Quando se menciona a expressão "troca de afectos" imaginamos (ou melhor, esse espírito colectivo denominado "as pessoas", imagina) imediatamente duas bichas a tentarem, à força, engolir a cara um do outro. Gente completamente desprovida de todo e qualquer romantismo essa que pensa assim.
Em São Bento, parados a meio das escadas do metro, dois rapazes, dois twinks muito novinhos e engraçados, resolvem uma zanga de namorados com choro, abraços e beijos pelo meio. Ninguém fica atordoado com a cena, ninguém tira fotos mentais ao espectáculo melodramático. É um percalço do quotidiano, como outro qualquer.
Na bilheteira da Trindade, estou eu a tentar ler enquanto espero ser atendido. Ao meu lado um rapaz gordo de metro e noventa, loiro como um ovo, declamava: eu não posso ser gay, não há gays com o cabelo tão amarelo como o meu! Duas raparigas que o acompanhavam riam-se como perdidas; e eram tão giras, uma loira a outra morena, punk, hip e coiso, piercings, roupa justa, cabelo apanhado. Abraçavam-se e de vez em quando esfregavam os narizes e beijavam-se. Nem as velhotas que estão sempre nestes templos de burocracia se transtornavam com isto.
Galerias de Paris, este sábado à noite. Um grupo de bears, de equipamento completo como manda a praxe (cabedal: casaco, boina, botas, calças; correntes, óculos escuros, etc.) passava - provavelmente a caminho do Lusitano - em matilha, pelas hordas de tias, tios, queques e outras pessoas de bem, hippie chics, chic hippies, pseudo-artes, guests listed do Twins, trintões armariados, ..., enfim, como se fizessem parte da biodiversidade que pousa à noite naquela rua, sem disturbar minimamente toda esta fauna (bem, talvez os trintões...). Deveras fascinante!
Hoje chegou-me aos olhos um artigo do The Telegraph sobre a cidade do Porto. Esta frase ilustra bem o que eu acho que se anda a passar por cá: Porto, ideal for an autumn sun break in a relaxed, artful city that, unlike other supposed capitals of cool, prefers not to show off.
So true, so very true. A minha cidade está a crescer. Sem show off!
Enche-me de ternura, quase paterna, na verdade, ver dois rapazes ou duas raparigas a trocarem uns carinhos, sinceros, sem show off, em plena luz e azafama do dia.
Quando se menciona a expressão "troca de afectos" imaginamos (ou melhor, esse espírito colectivo denominado "as pessoas", imagina) imediatamente duas bichas a tentarem, à força, engolir a cara um do outro. Gente completamente desprovida de todo e qualquer romantismo essa que pensa assim.
Em São Bento, parados a meio das escadas do metro, dois rapazes, dois twinks muito novinhos e engraçados, resolvem uma zanga de namorados com choro, abraços e beijos pelo meio. Ninguém fica atordoado com a cena, ninguém tira fotos mentais ao espectáculo melodramático. É um percalço do quotidiano, como outro qualquer.
Na bilheteira da Trindade, estou eu a tentar ler enquanto espero ser atendido. Ao meu lado um rapaz gordo de metro e noventa, loiro como um ovo, declamava: eu não posso ser gay, não há gays com o cabelo tão amarelo como o meu! Duas raparigas que o acompanhavam riam-se como perdidas; e eram tão giras, uma loira a outra morena, punk, hip e coiso, piercings, roupa justa, cabelo apanhado. Abraçavam-se e de vez em quando esfregavam os narizes e beijavam-se. Nem as velhotas que estão sempre nestes templos de burocracia se transtornavam com isto.
Galerias de Paris, este sábado à noite. Um grupo de bears, de equipamento completo como manda a praxe (cabedal: casaco, boina, botas, calças; correntes, óculos escuros, etc.) passava - provavelmente a caminho do Lusitano - em matilha, pelas hordas de tias, tios, queques e outras pessoas de bem, hippie chics, chic hippies, pseudo-artes, guests listed do Twins, trintões armariados, ..., enfim, como se fizessem parte da biodiversidade que pousa à noite naquela rua, sem disturbar minimamente toda esta fauna (bem, talvez os trintões...). Deveras fascinante!
Hoje chegou-me aos olhos um artigo do The Telegraph sobre a cidade do Porto. Esta frase ilustra bem o que eu acho que se anda a passar por cá: Porto, ideal for an autumn sun break in a relaxed, artful city that, unlike other supposed capitals of cool, prefers not to show off.So true, so very true. A minha cidade está a crescer. Sem show off!
23.9.10
Resposta a Sérgio Vitorino
[no seguimento deste texto, e desta resposta]
Sérgio, antes de mais condescenda-me a opção de me continuar a dirigir a si na terceira pessoa. O discurso ganha, para mim, um tom de seriedade que não verifico quando feito na segunda pessoa.
E permita-me também continuar a tratar o assunto extraindo todo o mediatismo da coisa e seguindo uma linha de raciocínio clara. Serei, para tal, menos satírico desta vez.
A noção de Direitos Humanos - provavelmente a maior herança da Revolução Francesa e da escola contratualista oitocentista que sobreviveu ao tempo e nos chegou até hoje - é, pela sua essência, de âmbito universal. E isto porque representam um conjunto de princípios gerais sobre a natureza humana e a relação do Homem em sociedade com os seus pares (como estes aspectos são comuns a toda a Humanidade e a todos os povos conclui-se pela sua "universalidade"). Constituem portanto uma base de concordância política aceite por todas as sociedades que passaram pelo amadurecimento civilizacional do liberalismo de oitocentos e novecentos. Porém, seria infantil pensar que a sua "descoberta" trouxe a solução para prevenir qualquer conflito político. Todas as declarações de Direitos Humanos (sobretudo a de 1789 e a de 1948) constituem conjuntos de artigos onde se expressam princípios políticos moralmente ideais; não a chave para resolver problemas sócio-políticos complexos, com décadas (séculos!) de registos culturais, económicos, religiosos, sociais, que contribuem para adensar a trama e emaranhar cada vez mais uma eventual solução para conflito. Mas deixemos, por agora, a meta-política.
As Panteras Rosa não são um partido político (nem ambicionam tal coisa, julgo eu). Não apoiam a sua linha de acção num esquema político-filosófico que lhes permita tecer considerações com alguma profundidade sobre, por exemplo, questões de representação política, propriedade, conflito social, direito internacional, etc, etc. Qualquer membro, individualmente, tem obviamente essa aptidão; aptidão que se molda em conformidade com o seu pensamento político. Mas não faz sentido que o faça no âmbito de uma associação de lobbying político, como o são as Panteras. O horizonte político das associações deste tipo é, naturalmente, mais restrito porque está ligado, pela sua fundação, a uma causa social específica. É perfeitamente natural e desejável que uma associação de lobbying político concilie membros de diferentes escolas filosófico-políticas em torno da causa que se compromete a defender. Pôr isso de parte e passar a tecer declarações sobre conflitos políticos complexos (como o Israelo-Palestiniano), baseadas em princípios políticos ideais (a DDH), contra símbolos representativos (o Queer) da causa que supostamente defende, resulta numa ordem de prioridades que não é, claramente, coerente. E muito perigosa, por sinal, já que tende a provocar a alienação dos que defendem a causa (LGBT) mas que não concordam com a posição da associação nestas derivações circunstanciais.
O Sérgio põe as coisas nos seguintes termos - e, penso eu, é aí que está o seu erro de raciocínio: é necessário que os direitos humanos sejam uma questão LGBT. Invertendo as grandezas, inverte-se a ordem de prioridades e temos, agora, a base para uma acção política coerente sem correr o risco de parecer oportunismo mediático: é necessário que os direitos LGBT sejam uma questão de direitos humanos. Se as Panteras seguissem este último princípio em vez do primeiro nunca teriam emitido o dito comunicado.
Sérgio, antes de mais condescenda-me a opção de me continuar a dirigir a si na terceira pessoa. O discurso ganha, para mim, um tom de seriedade que não verifico quando feito na segunda pessoa.
E permita-me também continuar a tratar o assunto extraindo todo o mediatismo da coisa e seguindo uma linha de raciocínio clara. Serei, para tal, menos satírico desta vez.
A noção de Direitos Humanos - provavelmente a maior herança da Revolução Francesa e da escola contratualista oitocentista que sobreviveu ao tempo e nos chegou até hoje - é, pela sua essência, de âmbito universal. E isto porque representam um conjunto de princípios gerais sobre a natureza humana e a relação do Homem em sociedade com os seus pares (como estes aspectos são comuns a toda a Humanidade e a todos os povos conclui-se pela sua "universalidade"). Constituem portanto uma base de concordância política aceite por todas as sociedades que passaram pelo amadurecimento civilizacional do liberalismo de oitocentos e novecentos. Porém, seria infantil pensar que a sua "descoberta" trouxe a solução para prevenir qualquer conflito político. Todas as declarações de Direitos Humanos (sobretudo a de 1789 e a de 1948) constituem conjuntos de artigos onde se expressam princípios políticos moralmente ideais; não a chave para resolver problemas sócio-políticos complexos, com décadas (séculos!) de registos culturais, económicos, religiosos, sociais, que contribuem para adensar a trama e emaranhar cada vez mais uma eventual solução para conflito. Mas deixemos, por agora, a meta-política.
As Panteras Rosa não são um partido político (nem ambicionam tal coisa, julgo eu). Não apoiam a sua linha de acção num esquema político-filosófico que lhes permita tecer considerações com alguma profundidade sobre, por exemplo, questões de representação política, propriedade, conflito social, direito internacional, etc, etc. Qualquer membro, individualmente, tem obviamente essa aptidão; aptidão que se molda em conformidade com o seu pensamento político. Mas não faz sentido que o faça no âmbito de uma associação de lobbying político, como o são as Panteras. O horizonte político das associações deste tipo é, naturalmente, mais restrito porque está ligado, pela sua fundação, a uma causa social específica. É perfeitamente natural e desejável que uma associação de lobbying político concilie membros de diferentes escolas filosófico-políticas em torno da causa que se compromete a defender. Pôr isso de parte e passar a tecer declarações sobre conflitos políticos complexos (como o Israelo-Palestiniano), baseadas em princípios políticos ideais (a DDH), contra símbolos representativos (o Queer) da causa que supostamente defende, resulta numa ordem de prioridades que não é, claramente, coerente. E muito perigosa, por sinal, já que tende a provocar a alienação dos que defendem a causa (LGBT) mas que não concordam com a posição da associação nestas derivações circunstanciais.
O Sérgio põe as coisas nos seguintes termos - e, penso eu, é aí que está o seu erro de raciocínio: é necessário que os direitos humanos sejam uma questão LGBT. Invertendo as grandezas, inverte-se a ordem de prioridades e temos, agora, a base para uma acção política coerente sem correr o risco de parecer oportunismo mediático: é necessário que os direitos LGBT sejam uma questão de direitos humanos. Se as Panteras seguissem este último princípio em vez do primeiro nunca teriam emitido o dito comunicado.
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