5.7.10

Quando há lorde na costa

o menino deita-se cedo, faz as tarefas com dedicação, cumpre horários, é simpático com toda a gente. Quando o mar está bravo é o descalabro. Mas não se preocupem; boa noite, durmam bem.

3.7.10

Do Amor


O Making Love (1982) é sem dúvida um dos grandes clássicos do cinema queer americano. É uma espécie de homenagem gay ao filme melodrama, tão popular nos anos 50 (e, particularmente, entre a comunidade gay*). No vídeo em cima vemos trechos de An Affair to Remember e A Place in the Sun, dois expoentes máximos do género. Nem precisamos de nos afastar dos tão típicos subúrbios encantados (aparentemente, pelo menos), ou do tranquilo way of life dos Estados Unidos no pós guerra; tudo isto faz parte do cenário desta história de coming out tardia na suburbana Los Angeles dos anos 80.

(Aviso: spoiler)

Apesar do filme se propor a contar a história de um triângulo amoroso, na verdade a tensão emocional nunca abandona o casal feliz e jovem que são Zack e Claire. Bart, o outro vértice do triângulo, surge apenas como o catalisador do inevitável fim desse casamento insustentável - e assim tem de ser: é a própria natureza de Bart que determina o seu papel acessório, de descoberta e de mudança; efémero, portanto.

Ao contrário da maior parte dos filmes queer dos 80s e das décadas anteriores, temos um final feliz para o personagem LGBT. Ainda assim, as coisas não acabam bem; se a "vítima" do sistema era invariavelmente o gay, ou a lésbica, aqui a espada pende sobre a cabeça de outra alma desafortunada: a mulher, protagonista de um casamento quase perfeito. É ela, e não ele, que, ainda perdidamente apaixonada no último frame do filme, colhe a nossa compaixão. A questão centra-se agora em fazer a ponte entre os "oprimidos" e as vítimas indirectas do sistema - vítimas, claro, de uma sociedade que compromete moralmente os afectos a um paradigma discriminatório.

Por isto e por ter sido um dos primeiros filmes do género produzidos por uma major de Hollywood, é uma obra de um enorme vanguardismo - sem dúvida um dos clássicos do "nosso" cinema.

*Todd Haynes homenageia este género no seu Far from Heaven (2002)

1.7.10

Here's looking at you, kid*

Boa noite. Antes de mais, apresento-me: 1. sou um rapaz de 21 anos; 2. nascido e criado no Porto; 3. presentemente solteiro; 4. não tenho a menor queda para compreender sinais, para gerir cumplicidades, para construir uma relação visual que dure mais que duas fracções de segundo ou que não se limita ao tímido olhar acidental; 5. sou patético.

Mais: todos à minha volta sofrem em maior ou menor grau desta patetice porque, fora os naturais abusos da noite (naturalmente porque os outros não são eficazes) ninguém se mostra como professor desta linguagem subtilíssima. Alguém? Algum manual? Não?... É, também, isso que torna a Comunidade tão frágil e infeliz - a inadequação ao vocabulário corrente. Eu pelo menos não me adapto.

Bem, teremos sempre os (grandes) clássicos para nos ensinarem a perceber e a comunicar com a "outra metade" - mutatis mutandis, já que nem "outra" nem "metade" são efectivamente no nosso caso. Duvido que resulte, mas não custa experimentar; provavelmente não funcionará porque 6. não fumo.



*tenho de parar com estes títulos.

29.6.10

28.6.10

Frankly my dear, I don't give a damn


A mim o que me impressionou negativamente nem foi o facto de ter promulgado o casamento, apesar de ser um casamento com o qual eu não concordo e que entendo como união. Fiquei, sim, muito admirado com a produção cultural insuficiente da argumentação usada: dizer que não veta por causa da situação crítica que estamos a atravessar? Mas há aqui alguma relação de causa e efeito? Vetar daria origem a manifestações gigantescas, descontentamento? Se ainda há dias houve uma manifestação espectacular, como todas as da CGTP, e Lisboa foi invadida por pessoas de todo o país, que quiseram protestar por estarem em causa o pão, os salários... Assumiram a defesa dos seus direitos... E houve alguma escaramuça? Qual mal-estar? Felizmente já demos vários passos na democracia!

O que é certo é que mesmo sendo vetada, a lei voltaria ao Parlamento e...

[Interrompe] Por isso mesmo! Ele sabia que o próprio ciclo da legalidade seria suficientemente rápido e teria um determinado efeito. Por isso, para que é que vem com uma explicação que é perfeitamente inadequada, inconveniente, injustificada e incoerente? A sério que não vejo como é que uma situação crítica do ponto de vista económico-financeiro pode ser agravada com a legalização de um homem casar com um homem ou de uma mulher com uma mulher.

D. Januário Ferreira, bispo das Forças Armadas, em entrevista ao i


Começamos da melhor forma. Os bispos já perceberam que o nosso Presidente não perde muitos fios de cabelo a reflectir sobre as questões do nosso tempo. Cavaco estuda o quotidiano sócio-político com muito cuidado, sente a pulsão da comunicação social, descarta a opinião publicada mas interioriza com a mais devota atenção os sintomas de uma quase divina opinião pública. Ele sabe quem o apoia; sabe, sobretudo, traçar o perfil psicológico, cultural e social do seu típico apoiante. Sabe o que deve ou não dizer, de que assuntos essa abstracta figura gosta de ouvir falar, e que papel deve um estadista ter.

No fundo, Cavaco não faz política, pelo menos não no sentido mais "nobre" do termo; joga, sim, com as convenções, com sensibilidades e preconceitos. E tudo isto serve com aquela postura de político responsável que se eleva acima dos fait-divers lamacentos da política do dia-a-dia. Mas é apenas a postura, a fachada, não o pensamento ou a acção política.

Sobre o casamento gay, é lamentável forma como o Presidente tenta subvalorizar uma questão e um debate que tanta importância tem para os dois grupos que disputam o antagonismo neste debate: a igreja e a comunidade LGBT; fica apenas o sentimento comum de que Cavaco Silva não acha grande piada a que o país perca tempo com estes assuntos corriqueiros e fúteis.