1.7.10

Here's looking at you, kid*

Boa noite. Antes de mais, apresento-me: 1. sou um rapaz de 21 anos; 2. nascido e criado no Porto; 3. presentemente solteiro; 4. não tenho a menor queda para compreender sinais, para gerir cumplicidades, para construir uma relação visual que dure mais que duas fracções de segundo ou que não se limita ao tímido olhar acidental; 5. sou patético.

Mais: todos à minha volta sofrem em maior ou menor grau desta patetice porque, fora os naturais abusos da noite (naturalmente porque os outros não são eficazes) ninguém se mostra como professor desta linguagem subtilíssima. Alguém? Algum manual? Não?... É, também, isso que torna a Comunidade tão frágil e infeliz - a inadequação ao vocabulário corrente. Eu pelo menos não me adapto.

Bem, teremos sempre os (grandes) clássicos para nos ensinarem a perceber e a comunicar com a "outra metade" - mutatis mutandis, já que nem "outra" nem "metade" são efectivamente no nosso caso. Duvido que resulte, mas não custa experimentar; provavelmente não funcionará porque 6. não fumo.



*tenho de parar com estes títulos.

29.6.10

28.6.10

Frankly my dear, I don't give a damn


A mim o que me impressionou negativamente nem foi o facto de ter promulgado o casamento, apesar de ser um casamento com o qual eu não concordo e que entendo como união. Fiquei, sim, muito admirado com a produção cultural insuficiente da argumentação usada: dizer que não veta por causa da situação crítica que estamos a atravessar? Mas há aqui alguma relação de causa e efeito? Vetar daria origem a manifestações gigantescas, descontentamento? Se ainda há dias houve uma manifestação espectacular, como todas as da CGTP, e Lisboa foi invadida por pessoas de todo o país, que quiseram protestar por estarem em causa o pão, os salários... Assumiram a defesa dos seus direitos... E houve alguma escaramuça? Qual mal-estar? Felizmente já demos vários passos na democracia!

O que é certo é que mesmo sendo vetada, a lei voltaria ao Parlamento e...

[Interrompe] Por isso mesmo! Ele sabia que o próprio ciclo da legalidade seria suficientemente rápido e teria um determinado efeito. Por isso, para que é que vem com uma explicação que é perfeitamente inadequada, inconveniente, injustificada e incoerente? A sério que não vejo como é que uma situação crítica do ponto de vista económico-financeiro pode ser agravada com a legalização de um homem casar com um homem ou de uma mulher com uma mulher.

D. Januário Ferreira, bispo das Forças Armadas, em entrevista ao i


Começamos da melhor forma. Os bispos já perceberam que o nosso Presidente não perde muitos fios de cabelo a reflectir sobre as questões do nosso tempo. Cavaco estuda o quotidiano sócio-político com muito cuidado, sente a pulsão da comunicação social, descarta a opinião publicada mas interioriza com a mais devota atenção os sintomas de uma quase divina opinião pública. Ele sabe quem o apoia; sabe, sobretudo, traçar o perfil psicológico, cultural e social do seu típico apoiante. Sabe o que deve ou não dizer, de que assuntos essa abstracta figura gosta de ouvir falar, e que papel deve um estadista ter.

No fundo, Cavaco não faz política, pelo menos não no sentido mais "nobre" do termo; joga, sim, com as convenções, com sensibilidades e preconceitos. E tudo isto serve com aquela postura de político responsável que se eleva acima dos fait-divers lamacentos da política do dia-a-dia. Mas é apenas a postura, a fachada, não o pensamento ou a acção política.

Sobre o casamento gay, é lamentável forma como o Presidente tenta subvalorizar uma questão e um debate que tanta importância tem para os dois grupos que disputam o antagonismo neste debate: a igreja e a comunidade LGBT; fica apenas o sentimento comum de que Cavaco Silva não acha grande piada a que o país perca tempo com estes assuntos corriqueiros e fúteis.